5 de setembro de 2016

Impressões de LAUSANNE - YLG2016

1. Breve História de Lausanne

O Movimento de Lausanne é um movimento evangélico global que nasceu no Congresso Internacional sobre Evangelização Mundial em 1974. Neste evento, que ocorreu em Lausanne (Suíça), estiveram presentes 2700 delegados de mais de 150 países. Organizado por Billy Graham e John Stott, o Movimento de Lausanne deu origem a vários encontros estratégicos a nível global, onde se inclui o encontro de Lausanne em 1974, o de Manila (1989) e o da Cidade do Cabo, na África do Sul (2010). 

    Nos dias 3 a 10 de agosto aconteceu o Encontro de Líderes Jovens de Lausanne na Cidade de Jacarta, na Indonésia, estiveram presentes cerca 1000 delegados de +-150 países. Este é o terceiro encontro convocado pelo Movimento, que ocorre uma vez a cada geração. Os encontros anteriores foram em Cingapura, 1987, e na Malásia, em 2006, mobilizando e conectando influenciadores emergentes evangélicos na missão global. Esses encontros também proporcionaram amizades para a vida e parcerias ministeriais. O objetivo do Encontro é promover conexões entre os líderes e capacitar novas gerações para a missão global a fim de que esses influenciadores promovam um impacto permanente para o Reino e a igreja global.[1]

2. Estrutura e Acolhimento
   
   Cheguei em Jacarta no dia 02 de agosto às 22:45. No aeroporto já contava com a companhia dos irmãos Homero (Jordânia) e Natan (ABU); após o desembarque nos unimos a Matheus (ICEV) e Andreia (Canadá). Também já se aglomerando havia vários irmãos estrangeiros aguardando o transporte para o hotel. 

   Desde o primeiro momento fiquei impressionado com a estrutura do evento. A equipe de apoio (cooperadores) foi maravilhosa, eram irmãos indonésios. Todos os trabalhos de orientações, apoio e cuidado eram realizados com muita alegria e disposição, para mim estava notório a satisfação desses irmãos em nos servir e conversar conosco. Em todos os momentos me deparava com um sorriso e “can I help you?”. Sobre a estrutura, os hotéis estavam ótimos, excelentes e também com bom atendimento e um delicioso café da manhã. Havia ônibus com vários horários para nos conduzir ao local do evento e também é importante destacar a segurança, sempre reforçada para que tivéssemos o melhor Encontro possível.

  O Encontro aconteceu na UPH (Universitas Pelita Harapan), uma belíssima universidade cristã. A estrutura oferecida, desde auditório, salas de reuniões e espaço de alimentação promoveram um encontro de excelência e tudo muito bem organizado. Quero parabenizar aos organizadores de Lausanne e a Igreja Indonésia, pois a estrutura e logística do evento foi nota 1000.

3. Envolvimento com as Escrituras
   
   O grande tema do Encontro foi Unidos na Grande História e os temas que nos guiaram durante as reuniões da manhã foram criação, queda, redenção e a vida na nova cidade. O período da manhã iniciava com música, peça teatral e exposição; depois havia alguns minutos para oração e reflexão e para finalizar a manhã o grupo de conexão (grupo pequeno), este discutia e meditava no texto. Fiquei bastante tocado com as exposições. No período da noite as músicas se destacavam mais, seguido de informação (situação do mundo), orações e palestras. Aqui quero destacar uma palestra do Ravi Zacharias: “precisamos entrar na história de Deus e receber orientações para saber evangelizar no meio das mudanças. Encontrar um ponto de contato, mostrar a glória de Deus. As pessoas estão te olhando, seja verdadeiro, evangelize com a vida sem comprometer o evangelho. Vamos lutar, levar o evangelho ao mundo com verdade e justiça. Traga formas diferentes de pregar o Cristo machucado, mas não comprometa o evangelho”.

   A brasileira Marina Silva deixou uma boa reflexão em sua palestra. Argumentou biblicamente sua tese de sustentabilidade, pensando na defesa e cuidado da criação: “destruir a criação é ofender ao criador e desprezar o presente que Ele nos deu”. Anne Zaki expôs sobre a Torre de Babel, demostrando o grande problema da idolatria e o egocentrismo e ainda outra impressão marcante foi com o David Platt, que pregou com ousadia sobre a condenação do mundo e deu ênfase na necessidade de proclamar a Cristo. Os Guinnes nos conduziu a uma reflexão sobre crises ao redor do mundo, como secularismo e crescimento do Islã; sua preocupação com secularismo está na forma de como as gerações futuras vão encarar as mudanças, levando o evangelho sem ser influenciados. “É preciso ter coragem para quebrar com a própria geração quando estão errados”.

   Lausanne é um movimento comprometido com as Escrituras, vê-se uma dedicação em todas as partes para que Deus seja ouvido e glorificado por meio da Palavra. A obra de evangelização mundial deve considerar as Escrituras e o Cristo crucificado é o Cristo da Escritura. Por isso que o Pacto de Lausanne (1974) dedica um capítulo inteiro falando da autoridade da Bíblia, seu poder e interpretação. A Confissão de Fé de Cape Town na parte 1, item 6 diz: “Nós amamos a Palavra de Deus nas Escrituras do Antigo e Novo Testamentos ... Nosso amor pela Bíblia é uma expressão do nosso amor por Deus”. A Missão de Deus não é realizada pela experiência com o homem e nem determinada pelas necessidades, mas exclusivamente pela Palavra de Deus e redenção em Cristo. As estatísticas mostram que o mundo está perdido e ainda há milhões de pessoas sem o evangelho e nem uma porção da Escritura, o tempo ainda não terminou!

4. Grupo de Conexão
   
   Uma das coisas que mais me marcou e promoveu impressão foi o grupo pequeno. Nosso grupo foi formado por: Stephanie Kraft (UK), nossa mentora; André Saldiba (IBAB); Samuel (Portugal); Mateus (ICEV); Ana Paula (AME); Andréia (Canada) e Eu. Nos reunimos no auditório todas as manhãs para meditar no texto exposto e das 11 a 12:15 para compartilhar o LifeMap e orarmos juntos. Fui muitíssimo edificado pelas histórias de cada um e também pelo cuidado e carinho da líder da equipe, que com sua experiência e amor a Cristo nos impactou muito.

5. Encontros e Contatos
   
   Um dos propósitos do Encontro foi proporcionar CONEXÃO entre os convidados. Tive o privilégio de conversar bastante com alguns irmãos ligados a organizações importantes; como ABU (Natan, Giovanna, Jéssica, Fernando, etc), MAIS (Homero), AME (Iva e Ana Paula), KAIRÓS (Wellington), JMM (Davi e Vanessa), Dynamic Church Planting (David Godoy), JV (Marcos Botelho), ALEF (Leandro), Jonathan (Pesquisa), Vocare (galera), Roberto/Simone (Burkina), Krisensio (Timor), Priscila (FTL), Isaque, Paulo Moreira, Marcos Amado, Tônica e outros preciosos irmãos que mesmo sem serem citados aqui contribuíram muito com meu aprendizado e edificação. A delegação representou bem a diversidade da igreja brasileira; diversidades de regiões, pensamentos e desafios, tanto transculturais, como urbanos. Irmãos alegres, motivados e cheios de sonhos e ainda o orgulho em ver conterrâneos levando o evangelho em contextos extremamente difíceis. Sou devedor a essa delegação pelo aprendizado e momentos de conversas e sugestões ministeriais. Alguns contatos para estágios de alunos foram feitos e espero que isso promova benefícios em prol do Reino.

6. Envolvimentos (reuniões em grupo, conversas individuais e frustrações)
   
   Participei praticamente de todos os encontros, no auditório e em pequenos grupos. Além da programação normal, tivemos algumas reuniões extras; uma reunião aconteceu com a Marina Silva. Minha impressão sobre esse encontro foi ruim, ela falou sobre sua proposta política, como vê a missão e sobre rótulos. Na primeira questão, ela propõe uma política nova, neutra e fora dos rótulos direita e esquerda. O problema é que quando ela argumenta sobre uma nova maneira de se fazer política e contra rótulos, suas propostas são horizontais, partem das necessidades e de uma empolgação marxista, aliás ela falou sobre marxismo. Em relação a missão, ela disse o quanto gosta da “teologia da libertação” e suas leituras bíblicas e ilustrações são baseadas em interpretações de padres e libertacionistas. Também defendeu uma missão que parte “do contato com o próximo”; ou seja, seus pressupostos são claramente esquerdistas/marxistas e não cristão/protestante/bíblico. Infelizmente o tempo não me permitiu perguntar, mas percebi o quanto seus ideais influenciam os evangélicos brasileiros, houve um clube de fãs em torno dela e ouvi uma dezena de irmãos reproduzindo a questão dos rótulos. Nós sabemos que não há política e nem teologia neutras, somos filhos da nossa educação e de pressupostos teológicos e filosóficos, conscientes ou inconscientes; nós revelamos esses pressupostos em nossos discursos e quando não assumimos nossas posições ou não somos convictos é porque nossos pressupostos são frágeis ou ruins. Em relação a Sustentabilidade fiz um comentário positivo acima, realmente foi muito bom e bíblico, daí acho que a questão está na política mesmo.

   Minha oficina foi sobre o Islã. Tivemos um tempo muito produtivo guiados por um bate papo sobre os desafios com o Islamismo. Ouvimos vários obreiros que trabalham em regiões difíceis. Outro encontro importante relacionado ao Islã foi com o Pr. Marcos Amado, conversamos um bom tempo sobre educação teológica, meu ministério no SETECEB, Lausanne e Islamismo. Esse nobre pastor é professor no Seminário Servo de Cristo, líder do Martureo e um missionário apaixonado pela evangelização dos muçulmanos. Os dois encontros promoveram em mim uma compreensão mais bela do trabalho com os muçulmanos; fui convencido da necessidade de trabalhar para que a Igreja entenda seu papel. Somos chamados para uma evangelização considerando que os muçulmanos são perdidos e não conhecem a verdade, por isso precisam ser amados e alvo do cuidado da Igreja. O corpo de Cristo não pode se deixar influenciar pela mídia, considerando todos os muçulmanos terroristas e assassinos. A linguagem da Igreja é outra e o exemplo é o de Cristo, sendo assim o discurso bélico é para o Estado que é ministro de Deus para restringir o mal, mas o corpo de Cristo proclama o evangelho redentor e demonstra com atitudes o cuidado de Deus por sua criação. Também tive um precioso tempo com o Pr. Paulo Moreira, falamos sobre missões, igreja e principalmente os desafios do movimento de Lausanne no Brasil e como poderíamos nos envolver mais. Sou grato a Deus por esses momentos em grupo ou 1+1.
  
  Tentei promover algumas discussões com os brasileiros sobre a realidade da igreja brasileira em relação a Missão. Escrevi nos grupos, propus temas de debates e até apelei para que produzíssemos algo, talvez um projeto ou documento. Poucos responderam positivamente. Mas, graças a empolgação de alguns irmãos conseguimos nos reunir mais duas vezes. Na primeira reunião ouvimos alguns compartilharem seus anseios e desejos. Marcos Amado expôs algumas necessidades para que Lausanne fosse mais conhecido no Brasil e um pouco do que são os princípios do Movimento. Sara Breuel e Mila Gomides também falaram sobre a necessidade de fazer algo e o irmão Hélder Favarin explicou como exemplo o que estão fazendo na Espanha. 

 Houve um certo sentimento de necessidade de uma organização ou grupo para trabalhar no Brasil. Marcos Amado propôs o início de uma organização e deixou sugestões para serem discutidas na próxima reunião. Nessa segunda reunião também foi apresentado o Daniel Bianchi, novo coordenador de Lausanne para a América Latina. Daniel explicou a importância do Brasil para os outros países e deseja muito que os brasileiros estejam envolvidos com eles e disse: “Nós precisamos da Igreja Brasileira”. Na terceira reunião, realizada na quarta-feira foi formado um grupo de coordenação, esse grupo está se organizando e buscando apoio para levar os objetivos e princípios de Lausanne a frente. Essas reuniões foram maravilhosas, conhecemos pessoas, ouvimos seus desafios e nos surpreendemos com a capacidade de cada um e suas vidas no campo. 

   Estive presente como ouvinte em uma reunião do grupo da Fraternidade Teológica, onde me senti acolhido e bem-vindo. Logo depois fomos a uma reunião com todos os latino-americanos. Aquela proposta de formular um documento deu certo do lado latino de fala espanhola. Nossos hermanos se animaram e nos buscaram para participar com eles. Fiquei empolgado e feliz com o compromisso dos irmãos em produzir algo mais palpável e ser uma voz a partir de Lausanne. Fiz a leitura da proposta três vezes e posso atestar que o documento ficou muito bom. A Teologia latino-americana está muito bem representada no quesito social e na luta para ser uma voz frente a corrupção e injustiças sociais. Qualquer pessoa que lê ficará admirado com a sensibilidade e “voz profética”, mas é notório para mim que não é uma proposta integral, pois falta evangelização/pregação. A minha maior tensão está no tratamento que alguns, repito alguns, líderes latino-americanos dão a Missão. As conversas e reuniões giram em torno das necessidades humanas, considero muito antropocêntrico. 

  Há uma forte reação a pregação e evangelização tradicional. Senti na pele a dificuldade de alguns quando fiz essa crítica e revelei meu desejo de trazer para o movimento irmãos de denominações mais conservadoras. Ouvi: “esse é o contexto da América-Latina”, “não podemos pensar em denominações”. Sei que houve pelo menos três pessoas que propuseram a inclusão de mais proclamação e evangelização, porém no documento final não saiu essas propostas e somente faz uma menção muito pequena a isso, enquanto quase que na totalidade o discurso é social. É perceptível a reação negativa quando descobrem que há alguém no meio que não é da TMI e não defende uma Teologia Contextual. Mas, reconheço que as frustrações foram bem menores do que a comunhão, paz, crescimento e aprendizado que esses nobres irmãos causaram em minha vida e ministério, agradeço a cada um! 

7. Impressões Conclusivas
   
   Creio plenamente em Lausanne. O Encontro de líderes jovens confirmou o que venho ensinando em seminários nos últimos anos, que o Movimento de Lausanne é fundamentado biblicamente, continua sendo fiel aos princípios elaborados em 1974 e conhecidos pelo Pacto de Lausanne e reafirmados pela Confissão de Cape Town (2010). Pode-se resumir Lausanne como um “movimento de mobilização global para o cumprimento da Missão em resposta ao grande amor de Deus na história, através do evangelho de Jesus Cristo, do amor a Bíblia, de uma proclamação cristocêntrica e um esforço de redimir o mundo de Deus pelo auxílio da graça e da presença do Espírito” é também “um movimento de unidade, comunhão e alegria do Espírito no corpo de Cristo”. Lausanne representa muito bem a diversidade na unidade e o desejo de fazer de tudo para Cristo ser conhecido sem negociar a verdade, sem abrir mão de seus fundamentos e com um grande interesse de promover conexões e parcerias para cumprir a grande comissão até a volta de Cristo.

   Creio em “Uma Missão Integral”. O Encontro me levou a algumas reflexões e revisões missiológicas. Ainda tinha algumas dúvidas em relação a proposta de uma Teologia Contextual, porém ouvindo as palestras e conversando com irmãos de diversos lugares do mundo tive a certeza de que qualquer proposta de teologia contextual ou latino-americana é libertacionista e excludente. Não creio em nenhuma proposta de teologia/missiologia que parte do contexto ou da experiência humana com o pobre/marginalizado/necessitado, não sou otimista em relação ao ser humano. Creio em uma Missão de Deus que é elaborada à luz das doutrinas da revelação e inspiração plenária da Bíblia. Isso me obriga a crer que o texto foi formado a partir de um contexto histórico e gramatical e que esse contexto único da revelação determina a intenção do autor e o que de fato Deus quer dizer. O nome Jesus de Nazaré não foi dado porque Ele exercia sua preferência aos pobres e servia nos guetos (hermenêutica contextual), mas como nos revela o contexto, Ele era chamado de Jesus de Nazaré porque cresceu na cidade de Nazaré. Essa interpretação e outras como a libertação no Êxodo é única em todos os lugares e tempos. Ela depende de seu próprio contexto e não está presa ao contexto atual, libertacionista ou existencialista. Creio sim na necessidade da contextualização, ou seja, um ministério que se encarna na cultura e desafios do povo alvo, trazendo a Palavra de Deus para a realidade do povo, em sua língua e contexto, sem modificar o significado único do texto. O ser humano precisa se arrepender de seus pecados e se ajustar a Palavra e não o contrário.

   O conceito Integral depende do pressuposto daquele que o defende. No Brasil nós encontramos algumas vozes atribuindo a si mesmo uma defesa de Missão Integral, vê-se claramente posicionamentos políticos, diálogos intensos com a Teologia da Libertação e um interesse grande por uma missão que parte do “encontro com o outro”, “com o pobre” e não com Cristo e sua Palavra. Também há vozes que devem ser ouvidas e admiradas, nisso louvo: CEM, Ultimato, ALEF, entre muitas outras. Creio que o conceito Integral promovido por Lausanne tem como pressuposto a Escritura e essa como uma revelação proposicional e inspirada, por isso Integral quer dizer: “A proclamação da glória de Deus na face de Cristo” (Lindsay Brown), sendo pregada publicamente e de casa em casa (At 20.20), amor pela Igreja e pelo mundo de Deus, a busca pelo cuidado do mundo, que afetado pelo pecado é destruído. Isso é Evangelho Integral, olhando para as coisas do alto (Lc 11.20; Cl 3.1-4) e cuidando responsavelmente das coisas da terra (Gn 1.28; Lc 9.13; Rm 8.18-23). 

   Creio que precisamos de mais jovens corajosos que lutam pela evangelização mundial; precisamos de uma geração fiel, compromissada e responsável. Que estejam dispostas a se prepararem melhor teologicamente e também, assim como há um bom grupo lutando contra as injustiças e corrupções, que Deus levante jovens brasileiros dispostos a lutar pela unidade da igreja, pela verdade do evangelho, denunciando erros na prática da Missão e na política eclesiástica de forma conservadora, ou seja, bíblica. É notório que há uma tendência no evangelicalismo brasileiro em manter um discurso de paz, paz e segurança (1Tes 5.3) para que não haja confrontação de erros e heresias quando na verdade cresce o mundanismo, liberalismo, feminismo, ecumenismo, sincretismo, etc. Esse discurso não contribui com a verdade, não promove a glória de Cristo e muito menos a evangelização mundial. Por jovens líderes mais preparados e corajosos para cumprir a Missão!

8. Agradecimentos
   
   Quero expressar minha gratidão ao Pr. Huang Cheng Hsiung, Diretor da Missão Servos que durante os últimos 13 anos tem me ensinado através de aulas e exemplos sobre a Missão de Deus e com muita confiança e coragem me indicou para o YLG2016, acreditando em mim como um líder influenciador na obra missionária brasileira. Agradeço imensamente minha denominação (ICEB), tanto como instituição (MEAN, MEAR/MT, MEAR/SP, MEAR/CN, SETECEB, DM, Igrejas locais), bem como muitos pastores, irmãos e amigos que intercederam e ofertaram para minha viagem. Agradeço meus amigos da Igreja Presbiteriana Santo Eterno, sempre presentes na minha vida e ministério e ao MCC (Missionários Cristãos Cooperadores). Agradeço a Igreja Presbiteriana de Vila Bonilha (Rev. Fábio), pelas orações e oferta generosa. Minha gratidão aos familiares, amigos anônimos, alunos e professores residentes do SETECEB que contribuíram e oraram. Ao meu irmão Roberto, meu amigo e mantenedor, sempre presente em todo meu ministério. Minha amada esposa e meus filhos que sempre sofrem minha ausência, desejo que meu amor e dedicação ao Senhor sirva de exemplo para que vocês o amem e se necessário morram por Ele, obrigado por entenderem que Deus através do Ministério e minha família são a minha vida. 


   Desejo de todo o coração que Nosso Deus em Cristo Jesus os recompense e aumente o vosso crédito, isso para a glória Dele!

   Pela evangelização mundial,
   Glauco Pereira

9 de março de 2016

Dilemas de um CONSERVADOR

Quando eu era adolescente costumava ouvir de minha mãe: “você é 8 ou 80”. Eu sabia que minha mãe estava dizendo que eu era muito radical, tinha convicções profundas em minhas decisões e me mantinha com certas dificuldades em aceitar inovações e mudanças de ideias. Um pouco mais jovem percebi que não houve mudanças.

Muito cedo me envolvi com dois movimentos urbanos, um mais ideológico e outro mais literário e profano. O primeiro foi o Punk e o segundo Gótico. O primeiro produziu em mim a política; me tornei bakunilista (anarquista), um órfão da nação (dizer que eu usava em minha jaqueta), isso quer dizer: “antigoverno, antimilitar e antireligião”. O segundo me levou mais para o lado religioso; diferentemente dos meus colegas, eu era mais “negro”, profano e adorador da besta. Minha banda preferida era Christian Death e a música preferida Stars, que dizia ser “lúcifer” o número 1 e príncipe das nações.

Foi por isso, que aos 16 anos fiz um pacto com ele nos cantos do Armagedon (antiga casa de som na Rua. Augusta/SP). Minha mãe tinha razão e meus amigos também, eu era radical e sempre fui ao extremo das minhas convicções e fé. Por isso, eu defendia minhas ideologias, meus colegas e toda a estrutura do nosso movimento; também argumentava, argumentava e argumentava até convencer ou ser convencido.

Foi assim que me tornei um cristão; por meio da graça o Espírito Santo usando de instrumentos humanos me convenceu, na mente e no coração de que somente Jesus Cristo é a verdade e sua Igreja o único caminho para a verdadeira religião. Após ser convencido e ter a experiência de sentir meu coração mudar, depois de uma oração dramática fui entregue ao Soberano. Minhas palavras foram: “Senhor, se você é maior do que “lúcifer” e de fato é verdadeiro, quero amá-lo e serví-lo muito mais do que faço ao Diabo. Por favor, quero que o Senhor apareça para mim e fale comigo e assim que eu te conheça muito mais do que conheço o Diabo”. Me lembro que depois dessa oração nunca mais fui o mesmo e esse amor pelo Deus vivo e meu Salvador Jesus cresce a cada dia. “Eu te amo, oh meu Deus!”

Agora convertido, crente sem me envergonhar e Ministro da Palavra, percebo que meu temperamento e “jeito de ser” não mudou. É claro que agora eu não saio na mão e nem danço batendo ombro e cabeça e nem mesmo me jogo do palco (rsrsrsrsrs), mas nas firmezas teológicas, na necessidade de ser convencido e no desejo de convencer sou o mesmo. Quer dizer, continuo “8 ou 80”, “preto no branco” e “radical”. Só que agora eu entendo que na verdade eu sou e sempre fui “UM CONSERVADOR”. Não mais um conservador perdido, mas agora um conservador pela causa do Evangelho, um conservador que milita na religião de Jesus Cristo, a única verdadeira (regenerado e possuindo o fruto do Espírito). Além disso, minha formação teológica é conservadora e aqueles que mais tocaram minha vida eram todos conservadores.

Mas, o que é Ser Conservador?

O conservador no contexto religioso sofre com alguns dilemas. Não porque está com dúvidas entre alternativas, mas porque constantemente se encontra em situações muito difíceis. Eu diria que hoje o conservador é confrontado com muitas ideias “pós-modernas” e convive com um número muito maior de líderes moderados (usarei também o termo moderistas[1]). Isso o leva a crises e uma maior necessidade de em alguns momentos praticar o “isolamento cristão”[2].

Em alguns momentos tenho a impressão de que o conservador precisa se justificar o tempo todo, pois suas fortes convicções agridem a maioria; porque o ideal moderista é não ter convicção, é não se posicionar e não se indispor com ninguém. A postura conservadora é uma ofensa ao homem moderado. Este vê o conservador com as lentes da intransigência e do radicalismo; sendo assim, o conservador e o fundamentalista são a mesma “coisa” para o moderado e o liberal.

O conservador é aquela pessoa que defende princípios ortodoxos e se baseia em pressupostos como o conceito de verdade absoluta e a lógica como padrões de argumentações e tomadas de decisões. O conservador é um guardião de valores, que ele luta para conservar e divulgar para o bem da religião e da tradição que se fundamenta nas Escrituras Sagradas. Luta para conservar princípios, instituições e tradições que ele considera importante para o bem da sua religião e da sociedade. O conservador luta pela “verdade em amor” (Ef 4.15), pela paz e tranquilidade entendendo que Deus instituiu as leis e autoridades para o bem e a unidade, tanto na igreja, como na sociedade civil (Rm 13; 1Pe 2.13-17).

O conservador convive no meio de três grupos e será excluído pelos três e também difamado pelos três. Quem são? Porque desprezam e maldizem o conservador? Através de cada conceito e possíveis respostas vamos entendendo um pouco as angústias e dilemas de um conservador.

O primeiro grupo é o liberalismo. Um liberal é conhecido pelo apego ao racionalismo e o método histórico crítico na interpretação das Escrituras. Ele não acredita nas doutrinas fundamentais do cristianismo; como: nascimento virginal de Cristo, ressurreição corporal, milagres, inspiração e inerrância da Bíblia. O liberalismo recebeu forte influência do iluminismo e cientificismo no final do século XIX e século XX. Aqui não há nenhum tipo de compatibilidade com o conservadorismo, é uma relação definida e clara; não há comunhão com liberais e estes não suportam conservadores. Como as relações são definidas o conservador reage aos liberais com firmeza e repulsa.

O segundo grupo é o fundamentalismo. O fundamentalismo evangélico ganhou notoriedade no século 20. A principal obra que representa o movimento se chama Fundamentos (organizado pelo R.A Torrey (1856-1928). Foi um movimento de reação ao liberalismo e uma batalha para defender as doutrinas fundamentais do cristianismo como: nascimento virginal de Cristo, expiação substitutiva, inspiração e inerrância bíblica, ressurreição literal, etc.

Alguns institutos bíblicos e igrejas são resultados dos esforços evangelísticos do fundamentalismo. Na área da política eclesiástica foram adquirindo um status de rigor disciplinar. Ao longo dos anos foram se confundindo com a política e adquiriram uma postura mais bélica, intransigente e fechada (após 2ª Guerra). Se tornou um grupo restrito, sectário e sem envolvimento com outros evangélicos conservadores.

Minha impressão é que o fundamentalismo cristão é uma ideologia. Por essa razão, nossos irmãos consideram suas ideias inspiradas e sua estrutura hermenêutica como Palavra de Deus. Isso resulta em um coração fechado para argumentos e mudanças. Aqui há uma diferença significativa do conservador, pois este, mesmo tendo convicções fortes está aberto para o diálogo teológico e tem o coração disposto a ser convencido pelos argumentos bíblicos e teológicos. O que o conservador compartilha com o fundamentalismo nessa questão é a dificuldade com o modismo e o liberalismo.

Nas doutrinas fundamentais os conservadores e fundamentalistas estão juntos, mas no trato e na abertura para mudanças há uma clara diferença. Todo fundamentalista é conservador, mas nem todo conservador é fundamentalista. Essa é a razão de algumas lutas e crises de um conservador, pois quando este se posiciona ele é agredido e tachado de fundamentalista.   

Quero ser repetitivo nisso! Qual a diferença entre fundamentalismo e conservadorismo? O primeiro confunde estrutura teológica e hermenêutica com a Escritura. Defende seus pressupostos como inspirados e sua versão da Bíblia como a única tradução legítima. O segundo possui convicções profundas, por isso quer ser convencido por argumentos e pela razão. Ele busca diálogo e se dedica à discussões e novas pesquisas, sempre em busca da verdade e daquilo que é melhor para a glória de Deus. O conservador reconhece como cristão a tolerância, inclusão e o diálogo; porém não aos moldes do relativismo e da inclusão de grupos moralmente orientados.

O terceiro grupo é o moderismo (moderado). Eu chamo hoje de moderismo o movimento que no século XX denominavam de modernistas. A diferença é o contexto histórico e no caso do Brasil a influência freireana. Os modernistas representavam as novas tendências eclesiásticas e doutrinárias, por isso deram espaço aos liberais e inovações, mesmo que se declarassem conservadores na Confissão. Os moderistas se declaram ortodoxos na doutrina, mas hoje dão espaço tanto ao liberalismo, como ao neopentecostalismo. Algumas denominações sofrem mais com o liberalismo e outras mais com o neopentecostalismo, talvez isso dependa da tradição teológica ou litúrgica de um e de outro.

O homem moderado é aquele que não se define. As afirmações religiosas dos moderistas não são identificadas com nenhuma teologia. Eles representam mais uma atitude do que doutrina. Eles são mais envolvidos com um estilo de vida criativa, inspirados pelo cristianismo do que com uma ortodoxia. Os moderistas estão comprometidos com um projeto de não defender a instituição e a tradição. Eles aceitariam aqueles que são leais aos padrões herdados e cooperariam no serviço cristão e trabalham para introduzir outros, assim mantém a consistência, pois seria inconsistente exigir que outros aceitem a sua “ortodoxia”.

O ideal do moderista é ser relevante e expandir um cristianismo relevante a toda a humanidade. Eles buscam ser flexíveis e tolerantes, todos os que servem ao “Reino” e lutam pelo “cristianismo” são bem vindos, independente da tradição e das inovações. Os moderados também retém os documentos do passado para que suas posições e doutrinas não sejam conhecidas. Por essas razões, é inaceitável para o moderista posicionamentos teológicos e eclesiásticos e há grande indisposição para a disciplina e rigor institucional. O resultado disso é que algumas denominações históricas já estão entregues ao liberalismo e outras sem problemas com o liberalismo são atacadas com práticas neopentecostais.

O moderado é mais animado com a natureza humana e com inovações e mudanças. O conservador não busca inovação/revolução, mas apela para a constituição estabelecida. Ele se preocupa com reforma, porém busca saber o que reformar/mudar e como fazer, desde que seja fiel aos padrões bíblicos e tradicionais. O conservador entende que precisa deixar espaço para melhorias futuras. As mudanças devem ser para conservar e frutificar e não para inovar. Os valores e princípios das instituições/tradições passam pelos testes do tempo e principalmente pelos testes escriturísticos. O liberal rejeita esses padrões e o moderado abre as portas para os liberais e para os inovadores e ambos tem ojeriza do conservador. O conservador considera o moderismo um mal: "para que o mal seja bem sucedido, é somente necessário que os bons não façam nada” (Edmund Burke).

O moderismo no Brasil tem seguido os passos de Paulo Freire. No dia 13 de abril de 2012, Freire foi reconhecido como o patrono da educação no Brasil. Esse reconhecimento se deu por suas teses de “modelo de ensino horizontal”, autonomia do indivíduo e uma liberdade centrada no homem. É certo que a pedagogia de Freire trouxe influências boas no processo de ensino aprendizagem, pois motivou mais participação dos educandos, inclusão dos pobres e novas pesquisas de alunos e não apenas dos professores. Porém na prática, as implicações do modelo de educação em que o aluno está no mesmo nível do professor e que o indivíduo é autônomo e não pode sofrer restrições, podendo viver por sua própria responsabilidade tem promovido uma sociedade e religião libertina, imoral, sem respeito a autoridade constituída e uma rejeição à normas, instituições, tradições e ordem – é antinomista na prática. A abordagem freireana tem sido ao meu ver o maior problema na educação e religião no Brasil, tanto no contexto católico, como no protestantismo não reformado.

O homem moderado brasileiro se encaixa nos padrões freireianos. O próprio Freire diz que o educador deve acreditar “verdadeiramente na autonomia total, liberdade e desenvolvimento daqueles que ele ou ela educa”. Essa ideologia do “pensador anarquista” leva o indivíduo à libertação, ou seja, ele se liberta de sistemas que oprime, que sujeita ou que nos rege por prescrições. Por isso, Freire propõe uma educação ligada aos direitos humanos.[3]    

Por que o conservador sofre com os moderados?

O conservador não é entusiasta com a natureza humana como os freireanos, pois sabe que é corrompida. O conservador reformado mais ainda, porque sua tradição teológica vê claramente os efeitos da queda e sabe que as instituições, leis e princípios são resultados da graça de Deus para preservar a ordem e a justiça, tanto na comunidade local, como em toda sociedade em geral, civil e religiosa. O homem escravo do pecado precisa ser restringido e o salvo guiado para a santificação e aquilo que é moralmente correto.

O conservador entende que a autoridade das instituições estão em seus documentos e não em uma pessoa. Por isso, o presbítero é aquele que governa segundo a Escritura e os documentos exigidos pela lei. O líder cristão é escolhido para executar e aplicar a constituição e manter a disciplina sobre os impenitentes. Em uma denominação conservadora a figura do líder não será legisladora ou oligárquica, mas será aquele que preserva as leis, decisões conciliares e a boa ordem da instituição. O mesmo deveria ser aplicado a política e a economia, pelo menos na república e no capitalismo.

O conservador estima as instituições porque entende que a providência divina atua através das pessoas organizadas em benefício do Reino. A autoridade é ministro de Deus quando serve nas estruturas institucionais (Rm 13). Os órgãos são reguladores e formam uma tradição e esta quando é provada pelo tempo e confirmada pelas Escrituras produzem grande benefício ao Reino e favorecem ao cumprimento da vontade de Deus.

Por essa razão, o conservador se sujeita à autoridade, se submete e divulga as decisões dos órgãos máximos (assembleias, concílios, etc) e ainda trabalha em defesa dos Estatutos e Regimentos. O conservador não é um cismático e nem se aplica a politicagem, pois seu temperamento e convicções o levará a dar a vida pela unidade; e a boa ordem serão suas prioridades, mas não sem discussões e disciplina. O liberal é antitradiçao, rejeita dogmas e favorece a anarquia institucional. O moderado "deixa pra lá", sorrateiramente não segue as decisões supremas e para manter seu status finge não acontecer nada.  

O moderado despreza a importância das estruturas e por essa razão valoriza a informalidade, esta gera irreverência, a ilegalidade e por fim resulta a desordem social e religiosa. O líder moderado vai se dar bem com todos, aquilo que na política se chama populismo. No caso do conservador, este se enquadra no ditado: “profeta não se reelege”. Amigo conservador, seja bem-vindo ao contexto latino-americano!

Outra resposta possível do porque os conservadores sofrem com os moderados é o modus operandi. Há características de tirania no moderismo, pois até onde ele é aceito e exaltado a moderação atua, mas quando é confrontado e se sente ameaçado ele se torna conservador. A diferença é que o temperamento conservador confronta, embate e se expõe face a face; o moderado trincheira pelas beiradas, com “mansidão” e popularidade. Segundo um cientista político “a pior opressão que um ser humano pode enfrentar é de um moderado”.

O autoritarismo moderado se manifesta na informalidade, na desautorização institucional, não respeitando a ordem e a tradição. O conservador sofre essas investidas, ele é um problema no caminho do moderado. Eis aí o desafio para o conservadorismo brasileiro, tanto na política, como na religião. A paz e a tranquilidade do moderismo às vezes representa a arbitrariedade. A falta de embates, discussões e movimentações em muitos casos se torna a imposição silenciosa. Pois o trabalho de imposição se camufla em “amor” e palavras dóceis quando uma autoridade deixa de expor a verdade e de se submeter as leis. Essa atitude moderada quebra a democracia, o direito de expressão e a oportunidade de manifestação da verdade e por fim exalta a ilegalidade.

O conservador sempre sofrerá crises, críticas e mal entendidos por conta do seu temperamento, mas agora pelas Escrituras e pelo corpo de escritos conservadores deverá saber o que é e porque é assim. Como conservador peça sabedoria a Deus e coragem para defender Seu Evangelho, Sua Igreja e a verdade e justiça na política, educação, segurança e economia do pais, e ainda para levar o conhecimento de Deus à todas as nações, para sua glória e bel prazer! Sempre lute pela unidade da Igreja, pelo respeito às autoridades, pela honra do ministério e integridade do nome de irmãos piedosos; pela simplicidade e ao mesmo tempo a excelência, pois em todas essas coisas Deus é glorificado.

Em prol de Cristo e Sua Igreja,
Glauco Pereira




[1] Termo que passarei a usar para identificar o movimento dos moderados. No século XX eram conhecidos como modernistas e hoje também como progressistas.
[2] Termo usado por Gresham Machen em um momento de grande embate com os liberais.
[3] FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.
_____________.Educação como prática da liberdade, 1986.
_____________.Pedagogia da autonomia, 1996. 

11 de março de 2015

Ortodoxia & Ortopraxia

Introdução:

No último artigo refletimos sobre a necessidade de piedade e um bom preparo para o Ministro da Palavra. O pastor/mestre é alguém santo e douto, santo porque é regenerado e chamado ao ministério sagrado e douto porque serve à Igreja de Deus por meio da Palavra no exercício da docência. Somente isso seria suficiente para que a prática ministerial se desenvolvesse “como Deus quer”, porém a influência do praticismo pietista e do pragmatismo moderno no protestantismo brasileiro exige uma reflexão sobre a ORTOPRAXIA.

Nós estamos vivendo um tempo de grande pragmatismo e esquisitices no evangelicalismo brasileiro. Essas “coisas” podem ser encontradas em praticamente todas as denominações históricas, comunidades locais que se deixaram envolver por práticas não bíblicas. A verdade é que estamos sendo assaltados com inovações sem fundamento bíblico e muitas vezes sem reflexão dos líderes.

A pergunta é: “Por que práticas estranhas e os movimentos de crescimento de igreja conseguem entrar “sorrateiramente”, tomando conta de nossos cultos e estruturas da igreja? Este assunto tem gerado boas monografias, mas vamos pensar um pouco em um artigo breve, apenas para instigar o pensamento.

Acredito que duas respostas são possíveis a essa pergunta, respostas que se tornaram pressupostos que levam líderes ou uma comunidade a aderir práticas não bíblicas e de veras, esquisitas:

1º O pragmatismo religioso

De maneira muito simples e objetiva, podemos dizer que o pragmatismo nesse contexto é uma filosofia religiosa, advinda da America do Norte que propõe a “busca por resultados”. A ideia principal é que a igreja precisa crescer, dar resultados visíveis, alcançar objetivos, ter uma meta numérica definida. O alvo dessa proposta é alcançar o fim desejado, independente dos meios utilizados para isso. “O fim justificam os meios”.

Um líder ou comunidade influenciado pelo pragmatismo é levado a criar estruturas eclesiásticas e um culto voltado para resultados. Por exemplo: “pesquisa de bairro para saber que tipo de igreja as pessoas querem”; “igrejas em células”, com a necessidade de multiplicação numérica; sincretismo, aderência de práticas africanas, uso de objetos sagrados; culto voltado para a necessidade das pessoas, não mais adoração somente a Deus; pregação psicológica, fantasiosa ou com promessas mercantilistas.

2º O praticismo

Praticismo significa: “Ação pratico-utilitária que visa fins imediatos sem reflexão teórica ou com marco teórico superficial”. O praticismo tem como lema: “só é útil o que é prático”. No contexto religioso brasileiro, o praticismo tem sido o ideal de muitos grupos evangélicos e até mesmo de seminários teológicos influenciados pelo pietismo moderno.

Qual o pastor ou professor de seminário que nunca ouviu de um aluno: “acho que estou sendo inútil aqui apenas estudando” ou quando ensina na igreja, assuntos como oração, caráter de Deus e outra doutrina: “isso é muito acadêmico, gosto de coisas práticas”. Já me deparei com situações em que uma pessoa era aplicada aos estudos e pregava explicando direitinho as Escrituras e por isso era considerada “muito acadêmica”.

O praticismo tem inculcado em algumas pessoas a ideia de que tudo que é profundo, bem elaborado, refletido, discutido e planejado é academicismo e não prático. Os praticistas vivem na base do fundamento mais rápido e fácil; as estruturas eclesiásticas, o culto e a vida cristã são desenvolvidos “de qualquer jeito” ou apenas imitando algum modelo pronto que deu certo e até mesmo seguem a ideia do “vamos fazendo” para ver no que dá. Normalmente os praticistas não gostam de planejamento, reuniões, discussões e estudos teóricos e de casos. Na maioria dos casos, adotam modelos que deram certo com outros ou no caso da vida religiosa super-valorizam a experiência pessoal e o empirismo. Há um valor nessas coisas e a prática acontece no exercício de experiências, podemos até afirmar que a experiência confirma a doutrina; o que é negativo é o uso que o praticismo faz desses elementos do conhecimento. Nosso objetivo é defender a prática e denunciar como algo nocivo o praticismo tão presente em nosso meio.

O praticismo ganhou muita força com o Pietismo. Este movimento teve início na metade do século XVII, os historiadores tem marcado seu ponto de partida com a obra de Philipp Jakob Spener (1635-1705). A obra se chama Pia Desideria. Segundo pesquisadores do movimento, o pietismo foi uma reação à ortodoxia luterana na Alemanha e posteriormente ao movimento puritano. Eles desenvolveram uma ideia de que a ortodoxia protestante era muito rígida e priorizava a doutrina e uma religião nominal. Sabemos que essa interpretação, principalmente em relação aos puritanos é fantasiosa, pois qualquer pessoa mudará de ideia ao ler as grandiosas obras dos puritanos sobre “prática” e “vida cristã”. Algumas expressões foram marcantes para o pietismo; como: “vida versus doutrina”, “Espírito Santo versus ofício do ministério” e a busca pela “experiência religiosa”. O ideal pietista era a conversão pessoal, interpretação livre das Escrituras sem apoio das confissões e dogmas e auto-satisfação pessoal. Spener apoiava a necessidade de formação teológica, porém o ponto principal da vida cristã é a experiência religiosa.

O pietismo do tempo inicial foi renovador para a vida da igreja e contribuiu para várias denominações e o avanço missionário, porém ao longo dos anos foi modificando sua firmesa bíblica e priorizando a experiência, o que fortaleceu o liberalismo e o misticismo evangélico. O pietismo moderno no contexto religioso brasileiro aliou-se ao pragmatismo e o resultado tem sido devastador. De acordo com a tese do Dr. Geovál Jacinto, o pietismo influenciou a maioria dos seminários no Brasil e tem participado no processo de formação da maioria dos nossos pastores[1]. Um pietismo aliado a uma boa formação e com bons fundamentos doutrinários pode ser uma benção para a igreja, mas um pietismo praticista leva a igreja para uma abertura nas inovações e práticas não bíblicas.

Talvez a Reforma que estão pedindo ou uma alternativa ao pragmatismo e praticismo seja o retorno a verdadeira ORTOPRAXIA. Esta busca desenvolver uma prática eclesiástica e religiosa tendo como fundamento princípios bíblicos e inegociáveis. É uma junção entre ortodoxia e prática. Na perspectiva puritana a ortodoxia funciona como “um trilho da fé”, ela fornece as bases e direções para as estruturas, seja na comunidade ou na devoção pessoal.

O que é ortodoxia?

Ortodoxia é seguir corretamente os ensinos da Escritura, através de uma interpretação gramática, contextual e teológica, sendo fiel ao texto e doutrinas fundamentais. É seguir à sã- doutrina ou como diz em Atos 2.42, “perseverar na doutrina dos apóstolos”. As bases da ortodoxia protestante são: A singularidade de Cristo através da lei e o evangelho e a autoridade e suficiência das Escrituras (Bíblia). Tudo que somos e acreditamos passa por esse crivo, se não for assim, estamos fadados ao subjetivismo e inovações. Por isso, “o ensino bíblico/teológico é essencial para o líder e sua igreja, porque os ensinos lastram nossas crenças e, consequentemente, impõe-nos suas ações”.[2]Nossas práticas religiosas são determinadas pelas nossas crenças, sejam aquelas aprendidas em nossa comunidade de origem ou crenças que nós mesmos produzimos em nossas reflexões teológicas particulares.

Por essas razões, a ortodoxia funciona como um trilho nos conduzindo a uma prática segundo a vontade de Deus revelada nas Escrituras. É assim que se fundamenta nossa prática, a qual chamamos tecnicamente de ortopraxia. A ortopraxia deveria se basear em dois princípios que norteam a vida cristã e a eclesiologia em todas as coisas:

1º A busca inegociável pela glória de Deus

Em primeiro lugar essa busca acontece no culto. O propósito de Deus é criar uma família parecida com seu Filho para receber adoração através do culto da vida e do culto público do povo de Deus. O culto da vida é a santidade, devoção pessoal com Deus e a transformação da sociedade através de uma mente reformada, redimida pelo Espírito Santo. No culto público, isso acontece na simplicidade da pregação da Palavra, nas músicas de exaltação, nas contribuições e na eucaristia. O culto é totalmente direcionado a Deus, no culto evangélico não há elementos que satisfaça o homem, pois a glória de Deus e somente isso é nossa satisfação e desejo.

Depois é importante considerar que a glória de Deus alcança áreas da sociedade em geral. O cristão é responsável para trazer essa glória para a política. “Fazei qualquer coisa para a glória de Deus” (1Cor 10.31). A política deve expressar a glória na prática do bem (Rm 13), ela existe para que tenhamos uma vida tranquila, mansa e com ordem (1Tm 2.1-7). Na pratica da justiça e buscando o bem comum para o bem estar do ser humano, a política glorifica a Deus; o contrário disso, produz a ira de Deus!

Também expressamos a glória de Deus na família. A família é o ideal de Deus para o ser humano, não apenas porque Ele nos dá esposas e filhos, mas porque Ele mesmo está formando uma família. O próprio Deus tem escolhido pessoas em todas as nações para a adoção de filhos. Estávamos perdidos, mortos, órfãos e sem direção; por isso, Deus em um ato de amor e livre graça, mesmo eu não merecendo e sendo completamente rebelde me chamou, mudou meu coração e me adotou!! Deus, somente Deus!! Eu te amo, obrigado Pai! Nossa família, constituída conforme a orientação bíblica, expressa a vontade de Deus e serve de exemplo para a organização da igreja. A igreja é uma extensão do lar: Governo pelo pai, auxílio da mãe e filhos em crescimento e disciplina, por isso que se diz: “O que não governa bem a sua casa, não pode governar a Igreja de Deus” (1Tm 3.4-5).

Finalmente a busca pela glória de Deus na administração eclesiástica. O pastoreio da igreja deve ser “como Deus quer” (1Pe 5.1-4). Ninguém tem o direito de usurpar o plano de Deus para Sua Igreja e modificar suas estruturas, a Bíblia continua sendo a “regra” de fé. É muito comum hoje encontrar estruturas que mais se parecem com empresas seculares ou com clubes do que com igreja. Já conheci uma igreja que acabou com os presbíteros e os diáconos passaram a ser os “gestores”. Alguns “cultos” são reuniões de negócios ou fonte dos desejos.

O pastor deixou de ser Ministro da Palavra e conselheiro e passou a ser administrador, não cuida mais do rebanho, mas faz a igreja crescer e aumenta os rendimentos. Ainda é possível encontrar pastores que se tornaram gurus, alimentando as superstições do povo.

A Bíblia dispôs tudo o que é necessário para o cuidado do rebanho. Os presbíteros governam espiritualmente e supervisionam a igreja. Temos nas Escrituras três designações para isso; o pastor (cuida do rebanho), bispo (supervisiona a comunidade) e presbítero (o que preside), essas três designações são figuras de um mesmo ofício e pessoa. Também temos o diácono, este cuida da ordem da igreja e do serviço social, aqui é possível perceber um cuidado mais administrativo do que aquele requerido do presbítero.

2º A missão de Deus

Outro conceito que deveria nortear a prática (ortopraxia) é o da missão de Deus. A missão como defendo aqui não é a busca por relevância a qualquer custo ou aquele praticismo fundamentalista que somente tem olhos para a alma das pessoas. A missão de Deus refere-se à obra da redenção em Cristo Jesus, desde os tempos eternos, a fim de resgatar a criação caída em todos os aspectos da vida humana. A prática cristã precisa considerar que o propósito de Deus inclui toda a criação, é preciso trabalhar para que o homem redimido restaure os elementos não humanos e faça-os expressar a glória de Deus, tanto no domínio, como na sujeição do homem. A ideia do mandato da criação e cultural.

Outra manifestação da missão é a promoção de justiça, em uma sociedade pecaminosa é essencial que a igreja tenha voz profética. Essa voz profética não é aquela declaração ridícula e supersticiosa de poder das palavras ou ato profético tão comum nos neopentecostais, mas é denunciar o erro, o pecado e a injustiça político/social e lutar em prol do necessitado e pelo estabelecimento da justiça pelos governantes. É a justiça do Reino para a alegria e paz dos cidadãos da terra, até habitarem a cidade celestial.

Também vê-se a missão na propagação do evangelho do Reino por todo o mundo. Chamamos esse aspecto da missão de evangelização mundial. Conforme as Escrituras, Deus tem escolhido pessoas em todas as nações, línguas e etnias para a vida eterna em Cristo Jesus; podemos afirmar que pelo caráter eterno, esse aspecto é mais importante na ordem das coisas de Deus. A cidade dos homens é caracterizada por coisas temporais e limitadas, aqui tudo passa, mas a cidade de Deus é eterna e a redenção eterna transformará tanto a alma, como esse corpo mortal e temporal. Se desejamos a imortalidade, precisamos priorizar aquilo que é espiritual, ou seja, investir nas almas para sua redenção, sem se esquecer do corpo. Fazer a obra completa, mas se tiver que escolher, não trocar a ordem e buscar a redenção espiritual.

Essa missão é mundial. Ninguém tem o direito de limitar sua ação e nem mesmo de escolher priorizar seu próprio território. A igreja evangeliza em todos os lugares ao mesmo tempo, por isso, nossas igrejas precisam enviar missionários e orar, ao mesmo tempo em que a grande maioria dos membros ficam para evangelizar a cidade. Certa vez um jovem procurou um pastor e disse: “pastor quero ser missionário, Deus tem me chamado para outro país”. Esse pastor respondeu: “nós não vamos te enviar, pois nosso chamado é com nosso bairro”. Isso é antibíblico e mundano, pois o chamado de Deus é mundial e todos devem participar, não há desculpa nenhuma. Querido irmão e pastor, se você e sua igreja não estão envolvidos com a missão, sinto dizer que vocês estão fora da vontade de Deus. Se sua igreja é pequena e tem sido usada como desculpa para não enviar dinheiro para missões, eu sinto muito, pois sempre será pequena, mesmo com centenas de pessoas.

Conclusão:

A missão de redimir o mundo pela obra de Cristo é a mais sublime e maravilhosa tarefa do ser humano. Deus nos chamou para cooperar e nosso serviço redunda em glória ao Bondoso e Soberano Deus! O Ser e as compreensões corretas devem vir antes da prática. Por exemplo, Paulo expressa a doutrina da ressurreição e estar com Cristo para depois expor os imperativos de “fazer” (Cl 3). “Os indicativos nos encantam e instrui para vivermos os imperativos” (Heber Jr.). Sempre foi assim nas Escrituras.

Quero com esse artigo convidá-lo à prática, mas a prática do evangelho e não do pragmatismo e praticismo – Deus seja louvado!!



[1] SILVA, Geoval Jacinto da. Educação Teológica e Pietismo. São Bernardo do Campo: UMESP, 2010.
[2] Rev. Idauro Campos, in: CARREIRO, Vanderli Lima. Nossa Doutrina. Rio de Janeiro: Unigevan, 2005. p.7.

2 de janeiro de 2015

MINISTRO DA PALAVRA: santo e douto


A Bíblia revela que há um conselho de líderes que são responsáveis pelo governo e o bom andamento espiritual do rebanho de Deus. Esse conselho é chamado de presbíteros, sempre no plural e com algumas características essenciais para a função (1Tm 5.17; Tt 1.7; 1 Pe 5.1-2; 1Tm 3.2; 2Tm 4.2; Tt 1.9; At 20.17, 28-31; Tg 5.14; At 15.16).
Dentre esses presbíteros há alguns que são chamados para se afadigarem na Palavra, seguindo mais de perto a decisão dos apóstolos e sucedendo o ministério apostólico como Ministros da Palavra (At 6.4; 1Tm 5.17). Normalmente esses presbíteros que ministram e ensinam são chamados de pastores, isso se deve ao fato de Efésios atribuir à docência aos pastores (Ef 4.11).
Por essas razões, o Pastor é mestre e um verdadeiro Ministro. Tem como sua principal função pregar e ensinar, tanto pela sã doutrina, como pelo exemplo de vida – na espiritualidade e piedade. Pensando nessas questões de piedade e docência é que lanço mão de dois deveres do Ministro: Ser irrepreensível e apto a ensinar (Tt 1.6; 1Tm 3.2). Por isso, o Ministro da Palavra (Pastor) precisa ser um homem santo[1] e douto[2] (culto), pois sem santidade não agrada a Deus e nem verá sua presença (Hb 12.14) e sem a Palavra conduzirá o povo a destruição e miséria espiritual (Pv 29.18; Os 4.6).
A História demonstra que o esforço para nomear ministros menos capacitados e com mais habilidade política e “prática” causou igrejas mais mundanizadas, secularizadas e acostumadas com modismos. A ênfase na prática em detrimento do conhecimento profundo tem produzido doutrinas controvertidas, heréticas e até práticas seitarias nos cultos públicos. Também vê-se que o predomínio de ministros leigos em algumas denominações promovem divisões sem fim e é a bandeira do movimento neopentecostal, com suas esquisitices.
A crise atual da Igreja no contexto religioso brasileiro é acima de tudo teológica/doutrinária, por isso, o que precisamos na verdade é de ministros do evangelho mais santos e doutos. Homens piedosos, que servem de joelhos com os olhos ao alto e ao mesmo tempo são conhecedores profundos das ciências bíblicas e gerais, verdadeiros teólogos; exercendo seu conhecimento na pregação das Escrituras, na visitação do rebanho, no auxílio aos necessitados e na defesa do evangelho que foi entregue aos santos.
Um Ministro não santo governa a igreja com libertinagem e escandaliza o evangelho do Senhor. Não se submete a ninguém e muito menos a disciplina, seu poder e domínio é absoluto e sua administração é déspota. Não segue a Escritura e se apega ao alegorismo e múltiplas interpretações para justificar seus demandos e libertinagem. É visível homens assim na atualidade, assim como era na Igreja Medieval. Um Ministro não douto (alguns se orgulham da prática) leva a igreja para inovações, sem reflexão e nem razão de ser. A quantidade de ministros aderindo ao neopentecostalismo ou ao movimento de crescimento de igreja é enorme; hoje é comum encontrar em igrejas e até mesmo de minha denominação práticas católicas, superstições, estruturas secularizadas, mensagens de auto-ajuda, interpretações relativizadas da Bíblia, entre outras coisas.
Quero dedicar algumas linhas para expor dois movimentos (modismos) que vem crescendo no Brasil e já entrou sorrateiramente em muitas igrejas históricas. O primeiro é profano e blasfemo, o chamado “Caminho da Graça”. Seu principal tema é a graça; fundado por um lunático que desdém das Escrituras e da Igreja de Cristo. Esse movimento é moralmente orientado pela inclusão e tolerância pós modernas, rejeitam os ensinos da Bíblia sobre a Igreja e as doutrinas e super valorizam a informalidade (ex: o culto para eles é reunião de amigos ao redor da mesa, a pregação é conversa sobre qualquer coisa). Não vou gastar mais tempo com esse grupo, basta acessar sites e youtube para conhecê-los, é público.
Outro movimento é o chamado MDA (movimento de discipulado apostólico). No link a seguir você pode conferir a história e perceber que começou com novas visões do Espírito e não pela Bíblia, também há uma forte ênfase pragmática (a igreja tem que crescer) - https://www.youtube.com/watch?v=zVSv3wJ7DME. Os princípios de discipulado são bíblicos e acredito que devem ser considerados, os problemas estão nas práticas. Eu mesmo participei de uma conferência em São Paulo e me lembro bem das ênfases em restauração de todos os dons, curas, crescimento numérico, pregação temática e desejo de ser como a igreja primitiva.
Tenho em mãos um documento de uma igreja ligada ao MDA, onde diz que seus discipulandos devem “submissão total”. O ponto onde descrevem essa submissão é posterior a explicação do MDA, onde se afirma que o discipulado se desenvolve com o conceito de paternidade e na questão da submissão, o discipulando deve se submeter ao discipulador da mesma forma como a seus pais. Me lembro recentemente de visitar uma igreja ligada a esse movimento e um pastor auxiliar chamava o pastor presidente de “meu pai”.
Outra questão é que no ponto quatro do material dizem que o discipulando precisa “pensar igual ao discipulador”. É uma corrente de manipulação e subtraem a liberdade de conciência do indivíduo, fazendo acreditar que o movimento é de Deus e o único capaz de retornar a igreja nos moldes primitivos.
Recentemente conversei com um importante pastor batista que entrou e saiu deste movimento, ele me relatou: “Glauco nós saímos porque percebi que nossas práticas mudaram muito e todas as igrejas de minha região que aderiram ao movimento se tornaram neo-pentecostais”. Se não bastasse, no mesmo documento citado acima, no ponto 5, pede-se ao discípulo “lealdade plena”. Conforme testemunhas que participaram do movimento “quem discordar das práticas desses grupos é considerado rebelde por seus líderes”.
Para esses movimentos de crescimento de igreja não há liberdade e a tradição deve ser rejeitada e colocada de lado. Concluo esse ponto com a fala de um pastor no culto público sobre sua tradição e denominação: “Eu quero que a convenção b... vá as favas, não quero nem saber, nossa igreja será como a igreja primitiva”. Um pastor me testemunhou que ouviu do mesmo líder: “Faço qualquer negócio para minha igreja crescer”. Lembro-me bem da febre “Igreja com Propósitos”, depois “Vineyard”, Willow Creek”, “MDA”, “Igreja Emergente” e qual será o próximo?
O Ministro santo e douto é importante porque todas as práticas estranhas ao Evangelho de Cristo ou são introduzidas pelo Ministro ou autorizadas por ele. Sendo assim, um Ministro não douto produz leigos ignorantes ao Evangelho, suscetíveis ao erro e uma igreja distante da vontade de Deus e sensível a todo vento de doutrinas e inovações sem fim. Meu apelo é que a Igreja Cristã Protestante invista e motive seus obreiros ordenados e leigos a uma vida piedosa e estudiosa das Escrituras e da teologia bíblica, sistemática e prática. O verdadeiro Ministro da Palavra busca a santidade e simplicidade, assim como busca ser um teólogo para o pastoreio, evangelização mundial e qualidade da sua igreja local.
Que o Deus da nossa vocação nos ajude para sua própria glória!


[1] Santo: Alguém separado para uma vida de piedade e de acordo com a vontade de Deus, separado do mundo.
[2] Douto: Alguém muito instruído, sábio, inteligente, estudioso e doutrinado