17 de fevereiro de 2017

AS DISCUSSÕES TEOLÓGICAS


Introdução:

Em tempos em que a comunicação é vibrante, as informações são rápidas e de fácil acesso e as redes sociais se tornaram meios para divulgar ideias e expressar sentimentos, vê-se que cresce as disputas e discussões no âmbito político, filosófico e teológico. Em relação as discussões teológicas acredito que há muitas contribuições saudáveis e importantes, porém ao mesmo tempo encontramos exageros, desrespeito e ofensas constantes. Talvez, por isso cresce o número de pessoas desanimadas e a presença daqueles que eu chamo de “moderistas”. Sendo assim, cheguei à conclusão que um breve artigo sobre discussão teológica poderia contribuir para uma pequena reflexão sobre o assunto.

1. No campo da teologia a discussão é inevitável e importante.

O cristão é chamado por Deus para buscar o conhecimento (Pv 2; 2Pe 3.18). Na medida em que seu conhecimento sobre Deus aumenta, o cristão começa a pensar em suas crenças de forma inteligente e formal. Como o cristianismo não é uma religião folclórica é necessário formular convicções e práticas religiosas para devoção, serviço cotidiano e influência da sociedade. Isso é teologia! A questão é que para firmar suas convicções e fazê-las conhecidas é preciso testá-las, receber críticas e fazer uma auto-análise constante. Em nosso caso, isso é feito através da interpretação das Escrituras, da tradição e da aplicação prática no ministério da igreja e na evangelização mundial. Todo esse labor e as convicções formuladas serão expostas em pregações, palestras, artigos, conversas informais e postagens em redes sociais. De um jeito ou de outro, independente do lugar onde estamos, em algum momento as nossas crenças e pressupostos teológicos e filosóficos serão conhecidos e até mesmo quando escondemos ou tentamos “deixar pra lá”, nós estamos revelando pressupostos.

Essa exposição e divulgação pública de ideias geram as discussões. Quando alguns “indivíduos desceram da Judéia” e começaram a “ensinar aos irmãos” a obrigatoriedade da circuncisão para a salvação foi que Paulo e Barnabé promoveram “não pequena discussão”. Então, essa discussão foi levada aos apóstolos e presbíteros que após “examinar a questão”, permitiram um “grande debate” (At 15. 1-7). Essa grande discussão foi teológica, mas outra situação pode gerar discussão; as atitudes hipócritas e dissimuladas de irmãos por exemplo (Gl 2.11-21). A discussão teológica sempre esteve presente na história da igreja, tenho lido dezenas de cartas produzidas no período da Reforma e os constantes debates públicos e em sínodos eclesiásticos. Muitos documentos e pensamentos teológicos que saíram dessas discussões se tornaram confissões, catecismos e pontos teológicos importantes para nossa doutrina e defesa da fé.

2. A discussão não é o problema, mas o trato sim.

O problema é que nossos pressupostos e fortes convicções às vezes são dominados por nossa natureza pecaminosa, daí a falta de sabedoria e domínio próprio que permitem ao cristão desfrutar dos prazeres da carne e com isso se tornar um instrumento de “guerras e contendas”, matando e invejando sem nada obter (Tg 4. 1-3). O trato cristão em questão de discussão teológica tem suas próprias regras (mandamentos recíprocos), mas também é valioso pensar nos princípios de integridade intelectual e a razão de ser da discussão (você deseja dialogar, crescer ou aparecer?). Nessas questões gosto muito de pensar que a discussão teológica é muito proveitosa e um recurso fabuloso para que a graça de Deus se manifeste na busca pelo conhecimento e no aprendizado mútuo e também no tratamento do nosso caráter pelas diferenças nas diversidades e multiforme sabedoria divina (Ef 3. 10). O contrário disso é que não há sabedoria na ofensa e muito menos louvor em denegrir a integridade de pensamento daquele que é irmão em Cristo.

Nossa condição humana e pecaminosa nos humilha e nos coloca frente a frente com a diversidade naqueles assuntos não essenciais. Nossas posições teológicas são carregadas de pressupostos, pormenores e particulares. Nas questões particulares deveríamos promover reflexões e diálogos para que juntos pudéssemos dizer: “penso que essa teologia está mais perto das Escrituras”. Porém, não sendo inspiração e autoridade ela deverá nos humilhar, pois Deus encerra a produção teológica como possíveis e não como verdade plena; essa só é encontrada na própria Escritura e nas teologias gerais ou essenciais. Creio que atribuir verdade plena a uma linha teológica é arrogância e falta de sabedoria e militar sem cordialidade é ultrajante, pois é possível ter convicções e ser conservador mantendo a paz e comunhão com as diferenças. Podemos atribuir inconsistência a outra interpretação (se for possível), mas não heresia e ainda podemos elevar o tom para uma discussão fervorosa, mas sempre excluindo a ofensa e o desrespeito. No caso de heresias, o assunto deve ser levado à concílio (At 15), nesse caso as denominações possuem seus modus operandis para isso e devem ser respeitados e acatados por todos aqueles que subscrevem seus documentos e confissões.

3. Convicções e Pressupostos.

Ser convicto e firme é uma virtude cristã. O que precisamos é saber discernir nossas particularidades e com nossas convicções argumentar e dialogar. As particularidades são tentativas de compreender a vontade de Deus e como isso é prática constante de todo o homem piedoso essas particularidades se tornam métodos e lentes para nossa teologia e leitura das Escrituras. No exercício da piedade recebemos influências dos nossos mestres, que pelo amor à verdade imprimem em nós suas interpretações e métodos para que com reverência cheguemos a Deus através das Escrituras. Mesmo sem condições de discernir toda a verdade dos pormenores que ficam escondidos em Deus, eles desejam e se esmeram para nos formar a imagem de Cristo e nos reformar na alma pelo refrigério da perfeita lei de Deus. Essas coisas também aprendemos com os livros que com esforço e suor esses mestres escrevem na presença de Deus. Por isso, notabilíssimos irmãos, mantenhamos firmes nossa confissão, defendamos o verdadeiro evangelho e a Pessoa do Nosso Senhor e até sua bendita volta busquemos nos aproximar das Escrituras com nossas teologias, mas sempre preservando o vínculo da paz, o respeito e a comunhão com todos os que amam a Cristo e Sua Palavra.

Tenho crido que as diferenças de opiniões nas particularidades por possíveis interpretações são benefícios de Deus para promover em nós humildade e unidade. Ele nos humilha em nossas limitações fazendo nos confusos e colocando-se como o único verdadeiro e Senhor da verdade (Rm 3. 1-8). Não podemos ser “demasiadamente justos e nem exageradamente sábios” (Ecl 7. 16), mas deveríamos ter nobreza em considerar o outro “superior a nós mesmos” (Fp 2. 3) e mesmo no exercício da docência, como mestres da Palavra, “lavar os pés dos nossos irmãos” (Jo 13. 1-20), assim como nosso Reverendíssimo Senhor fez. 

4. Nosso campo de batalha.

“Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim, poderosas em Deus, para destruir fortalezas; anulando sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2Coríntios 10. 4-5). Nosso adversário é o Maligno, sua principal estratégia desde o início é formular argumentos falaciosos, deturpar a verdade de Deus e construir estruturas religiosas e filosóficas anticristãs. Por essa razão, todas as áreas da teologia, a filosofia e a apologética são instrumentos essenciais para a batalha espiritual e o cumprimento da missão redentora.

Aqui nós temos um vasto campo de batalha em comum. A razão disso é o crescimento das influências do liberalismo em nossas igrejas e seminários e a forte influência da praga neopentecostal em muitas igrejas, no caso da minha denominação a erva daninha neopentecostal é o maior problema. Daí meus irmãos, a importância de sermos um bom tribunal de Cristo (1Cor 6. 1-11); condenando e denunciando publicamente suas heresias e imoralidades.

Há dois tipos de gente aqui, causando estragos em nossas igrejas. a) aqueles que causam desordem por sua insubmissão e divisões; esses são desleais, trazem costumes antibíblicos para nossas igrejas, desobedecem normas e decisões e quando são julgados ou denunciados, convencem suas igrejas com seus erros e tiram as igrejas de suas denominações, se tornando após isso soberanos e livres de autoridades superiores, são os Diótrefes de hoje (3Jo 9-11). b) aqueles que afastam nosso povo do verdadeiro culto a Deus; esses introduzem superstições e desordem com seus elementos de culto que somente servem para a idolatria, diversão e entretenimento dos bodes (Spurgeon) e ainda oprimem com seus títulos e exploração ou com a libertinagem dos antinomistas; alimentando a informalidade, anulando a reverência do culto solene e desprezando o Dia do Senhor.

Nesses casos nossas igrejas precisam de uma boa ordem e disciplina. Concordo plenamente com os Reformados quando definiram a disciplina como uma das marcas da verdadeira igreja. A falta de disciplina para os filhos de Deus (1Cor 11.32; 2Tm 2. 24-26; Hb 12. 4-13) é uma clara demonstração de falta de amor da igreja e um desleixo com o caráter de Cristo em formação em cada um de nós; e a falta de punição para os impenitentes é falta de zelo e compromisso com o juízo de Deus, é uma ofensa ao Senhor, pois mancha seu precioso Nome e santidade (Mt 18.17; Rm 2. 21-24; 1Cor 5. 1-13). Esses homens que vivem na imoralidade, ensinam heresias e demonstram intenções destrutivas devem ser julgados e expulsos da igreja. O Apóstolo nos dá uma lista de situações em que os homens maus devem ser punidos (1Tm 1.20; 4. 1-11; 6. 3-10; Tt 3. 10-11). Talvez como nunca antes, precisamos que Deus levante em nossas denominações em geral e na política uma liderança conservadora, tanto na doutrina, como no trato administrativo e disciplinar.

5. Moderismo ou Moderação.

A moderação é uma disciplina espiritual e indispensável nas discussões teológicas, a qual o cristão utilizando do discernimento que julga todas as coisas se domina e através do conhecimento e sabedoria promove crescimento, tanto para si mesmo no poder do Espirito e da Palavra, como para aqueles que fazem parte do seu convívio social. Ter moderação ou ser moderado no sentido bíblico não é o mesmo que ser moderista (é um neologismo).

Tenho chamado de moderista aquelas pessoas que seguem os princípios filosóficos dos modernistas do século XX. Esses permitiram a entrada dos liberais nos seminários e universidades e seguem aquela ideia do “deixa pra lá”. Não sou simpatizante dessa filosofia e nem de seus pressupostos, são muito abertos e praticistas. O moderista surfa na onda do essencialismo ou usa argumentos do biblicismo seitário, ou seja, ele super valoriza aquilo que é essencial, por isso se incomoda com posições firmes, com assuntos históricos, culturais e com uma leitura teo-referente da realidade e ainda não se indispõe com ninguém (exceto com os conservadores). Os moderistas normalmente seguem o princípio católico normativo (Richard Hooker) para a vida cristã e o culto – esse princípio diz: “se uma prática não for proibida pelas Escrituras, qualquer um e igreja está livre para usá-la e nortear a vida do cristão”. Com isso, eles negam o princípio protestante da Confissão de Westminster: “Todo o conselho de Deus concernente a todas as cousas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou esta expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela”; como explica Warfield: “É requerido que os homens creiam e obedeçam não somente o que é expressamente declarado na Escritura, mas também no que pode ser lógica e claramente deduzido dela”. Os socinianos e arminianos antigos confinavam a autoridade das Escrituras apenas às suas asseverações literais. Com isso, alguns negam a doutrina da Trindade, imortalidade da alma, decretos de Deus, pacto das obras, etc; e rejeitam o princípio regulador do culto.

Esse princípio usado pelos moderistas também promove o sincretismo cultural, elevando a normalidade o que é mundano ou liberando a igreja para fazer o que quer (libertinagem). Tenho ouvido muito a frase: “posso fazer, pois a Bíblia não proíbe” ou “isso não está na Bíblia”. Minha pergunta é; não deveria ser o contrário? O silêncio de Deus é um salvo conduto ou um não? Se tal prática não é clara e nem pode ser deduzida será que agrada a Deus? Não seria perigoso relativizar a vida cristã e tornar os aspectos da vida e da igreja subjetivos? Já sei o que vão dizer meus amados irmãos: “Você é LEGALISTA”!!!! Fique tranquilo, pois creio na salvação somente em Cristo por meio da graça e no terceiro uso da lei apenas como um meio do Espírito santificar o crente. Penso assim porque sou protestante e creio firmemente na suficiência das Escrituras e sua absoluta autoridade sobre a igreja e o crente.

Em relação moderação há alguns textos bíblicos que a colocam como um requisito fundamental da vida cristã e muito mais para o exercício do ministério sagrado. “Porque, pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um” (Rm 12.3). “Porque Deus não nos tem dado espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação”. “... fazendo-o, todavia, com mansidão e temor, com boa consciência, de modo que, naquilo em que falam contra vós outros, fiquem envergonhados os que difamam o vosso bom procedimento em Cristo...” (1Pe 3.16).

A moderação é um meio para aplicar o “vínculo da paz” e também despertar reflexão sincera e decisões verdadeiras. Um homem com moderação sabe que algumas atitudes poderão ser úteis nas discussões teológicas: Não se concentre em seus próprios desejos e aspirações, nós fomos chamados para buscar sempre a glória de Deus e o que é próprio do seu Reino e vontade; reconheça que você é pecador e cuide para tirar “a trave do teu próprio olho e somente depois, ainda com graça e misericórdia, cuide para tirar a trave do olho do teu irmão (Mt 7. 3-5); considere se vale realmente a pena lutar por isso; ignore ofensas pequenas e mantenha a cordialidade e se retrate quando errar; interprete o que escuta e lê, com muito cuidado e olhando o contexto; “fale os oráculos de Deus” e diminua suas próprias opiniões, sempre demonstrando seus pressupostos e método adotado; abra mão dos seus direitos, um juiz chamado Antonin Scalia disse: “O que é lícito nem sempre é correto, o que é moralmente aceito nem sempre é adequado segundo a Bíblia e há situações em que o exercer o direito é realmente errado e destrói vidas e corações”; trate seu coração, pois segundo a Bíblia os conflitos vem de lá (Tg 4. 1).

Conclusão:

Por todas essas coisas, vamos lutar para que nossas diferenças de opiniões contribuam para a unidade e humildade dentro da diversidade. No corpo de Cristo um é reformado, que bom está mais próximo das Escrituras; porém que tipo de reformado? É mais calviniano ou puritano? Supralapsarianista ou infralapsarianista? Compatibilista ou incompatibilista? De 5 ou 4 pontos? Ou como o Packer que não gosta muito disso (é muito limitado isso)? Neocalvinista ou neopuritano? Outro é dispensacionalista; você é dispensacionalista? Tá! Mas é clássico ou revisado? Normativo (existe?) ou Progressista? Se é dispensacionalista, é antinomista (credo) ou crê no terceiro uso da lei como meio de santificação? Outro ainda com muito amor e piedade consegue ser arminiano. Se é, segue o arminianismo de coração (mais bíblico) ou de cabeça (sai fora desse seu liberal)? E missões? Crês no conceito reformado e tradicional de missões? Ou aderiu a moda de igreja missional? Ou milita na missão integral (tem gente muito boa aqui)? Gosta do movimento de Lausanne? Deveria, pois seus documentos são muito bíblicos.


Entendeu como precisamos da tolerância cristã e misericórdia de Deus? Que Deus nos ajude!!!!!!  

6 de dezembro de 2016

O CRISTÃO E A TATUAGEM

Introdução:

Nos últimos anos a tatuagem deixou de ser um assunto periférico ao cristão e passou a ser um problema a ser discutido. Isso se dá porque aumentou consideravelmente a propaganda, seja por meio dos tatuadores ou de pessoas famosas, e também tem crescido o número de jovens em nossas igrejas aderindo a essas marcas no corpo. Ao mesmo tempo em que cresce essa prática há um certo receio ou medo em líderes cristãos em se posicionar, pois qualquer posicionamento causará reações, seja de um lado ou de outro. Bom! Como já é do conhecimento dos meus leitores não sou de ficar em cima do muro, minha personalidade conservadora não me permite, me deixando em maus lençóis com aqueles mais moderados e liberais. É preciso dizer também que não estou fechado nessa questão, posso ser convencido pelas Escrituras ou pelo senso comum de que estou equivocado e, ainda tenho refletido em relação a “tatuagem inocente”[1] como uma possível exceção. Mas, vamos entrar na brecha e instigá-los nessa questão.

1. Breve História – para o pressuposto histórico/antropológico

Segundo as informações do Wikipédia há “provas arqueológicas que afirmam que as tatuagens foram feitas no Egito entre 4000 e 2000 a.C. e também por nativos da Polinésia, Filipinas, Indonésia e Nova Zelândia (maori), que tatuavam-se em rituais ligados a religião”.[2]Também é relatado que o pai da tatoo “foi o capitão James Cook (também descobridor do surf), que escreveu em seu diário a palavra "tattow", também conhecida como "tatau"(era o som feito durante a execução da tatuagem em que se utilizavam ossos finos como agulhas e uma espécie de martelinho para introduzir a tinta na pele)”. Com a circulação dos marinheiros ingleses a tatuagem e a palavra tattoo entraram em contato com diversas outras civilizações pelo mundo novamente. Porém, o governo da Inglaterra adotou a tatuagem como uma forma de identificação de criminosos em 1879; a partir daí a tatuagem ganhou uma conotação de fora da lei no ocidente”. Tanto pelo uso, bem como pela a adoção em grupos marginalizados, a tatoo passou a ser um símbolo de identificação cultural em todos os lugares do ocidente. No oriente ainda é possível encontrar significados símbolicos mais tribais e ligados a família, casamento, etc; mesmo que em alguns casos ainda encontramos símbolos religiosos.

Segundo um dos sites mais importantes de tatoo, o “Mundo das Tatuagens: “A tatuagem surgiu primeiramente entre tribos e clãs, como fator distintivo de grupo. Estima-se que isso ocorreu há pelo menos 3500 anos atrás. Inclusive, foi comprovada uma tatuagem em uma múmia do século VII dos nossos tempos e há ainda quem diga que é um sintoma da modernidade. Depois, com as evoluções sociais e da própria tatuagem a marca passou a ser o que é hoje; ou seja, mais uma expressão da personalidade, uma marca particular do indivíduo”. Essa expressão da personalidade representa: “transformar-se em guerreiro; tornar-se sacerdote; tornar-se rei; casar-se; celebrar a vida; identificar os prisioneiros; pedir proteção ao imponderável; garantir a vida do espírito durante e depois do corpo”.[3]

Na revista Galileu temos alguns estudos que identificam a tatuagem como: “o uso para identificar bandidos e enfeitar poderosos; para juntar tribos e afugentar inimigos; para mostrar preferências e esconder imperfeições” e a mesma revista traça um panorama histórico revelando que:

“Entre 2160 e 1994 a.C. múmias de mulheres egípcias, como a Amunet, possuíam traços e inscrições na região do abdômen; Entre 509 e 27 a.C, os imperadores romanos determinavam que para não serem confundidos com súditos mais bem afortunados; prisioneiros e escravos deveriam ser tatuados; Em 1600 com o fim das guerras feudais no Japão, os serviços dos samurais tornaram-se desnecessários. Surge, então, a Yakuza, a máfia japonesa; Em 1769 na expedição à Polinésia, o navegador inglês James Cook nota a tradição local de marcar o corpo com tinta. Na língua local, chamavam isso de "tatao"; Em 1942 durante a Segunda Guerra, os nazistas tatuavam um número no corpo dos judeus para identificá-los como prisioneiros nos campos de concentração”.[4] 

Em outras pesquisas como nos sites: remoção de tatuagem, mundo estranho, Brasil escola e outros com menos importância iremos encontrar relatos demonstrando que a história da tatuagem sempre esteve e ainda está relacionada com práticas como símbolos religiosos, marcas de prisioneiros, algo relacionado a sensualidade ou outras marcas pagãs e rebeldes. Essas histórias são descritas por historiadores e pesquisadores não cristãos, por isso não há preconceito e muito menos intenções ilegítimas em seus relatos.

A história da tatuagem é importante para nossa reflexão cultural e simbólica, pois “aquele que não aprende com a história tende a errar duas vezes” e a história revela o propósito e razão de ser das coisas na sociedade.

2. Refutando possíveis argumentos:

Tenho ouvido alguns argumentos em defesa da tatuagem, esses argumentos são encontrados em placas, vídeos na internet e em conversas com pessoas que aderiram a moda. O meu espanto é que encontrei cristãos em vídeos no youtube e pelo menos três que me questionaram pessoalmente utilizando os mesmos argumentos. Assim gostaria de expor os argumentos e refutá-los:

I - O primeiro argumento que gostaria de refutar é: “em tempos passados a tatuagem era uma marca rejeitada pela cultura, porém houve mudanças, pois as culturas mudam e agora a tatuagem se tornou algo aceitável e bem visto”.

Resposta - De fato, há mudanças culturais. Em relação a essas mudanças culturais precisamos ser sensíveis e coerentes com o fato de acontecerem alterações devido a mudanças filosóficas e do tempo. A questão é se um cristão pode aceitar essas mudanças simplesmente, sem questionar e criticar. Não seria cristão aceitar essas mudanças sem considerar os motivos e razões das mesmas. O cristão é um indivíduo que foi transformado pelo Espírito e possui a mente de Cristo, por isso como cidadão do Reino ele deve analisar e refletir se as alterações culturais foram promovidas pela presença redentora do Reino ou são alterações que exaltam a corrupção humana, a rebeldia do homem caído e a ofensa ao evangelho.

Os tatuadores tentam convencer sem argumentos que sua profissão é uma arte hoje em dia e não há nada de ruim; mas um verdadeiro cristão precisa perguntar: “em que a tatuagem glorifica a Deus”? ela promove a beleza da Pessoa de Cristo? Essa marca no corpo promove o Reino, a pureza e santidade; promove o evangelho; contribui com a Missão e ainda, é uma marca que torna a pessoa mais semelhante a Cristo ou ao mundo?

II - O segundo argumento mais usado é aquele que fotografei na maior loja de tatuagem da minha cidade e o mais usado entre cristãos na internet: “Não interessa o que a sociedade pensa”.

Essa filosofia de vida é um ultraje ao pensamento cristão. Primeiro porque agride o segundo mandamento: “amarás ao teu próximo” e depois porque não aprendemos assim do Apóstolo inspirado: “E, por isso, se a comida serve de escândalo a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que não venha a escandalizá-lo” (1Cor 8.13). Paulo bem sabia que o ídolo em si e as comidas sacrificadas não significam nada, a tatuagem em si também não significa nada, porém se ao próximo isso é tropeço “nunca mais comerei”. Sabemos que pela história contada acima, a tatuagem é um escândalo no mundo, quanto mais a um cristão que “não é deste mundo”. Por essa razão, o cristão deverá considerar o que dizem, qual a leitura é feita das marcas que ele carrega no corpo. A tatuagem é tão mundana que as instituições não cristãs repudiam e recentemente um homem para ser aceito precisou entrar com recurso na justiça. Nem o próprio mundo sem Cristo considera aceitável. No mínimo, a tatuagem traz desconforto na sociedade e nas Igrejas de Deus.

Alguns pregadores argumentam que o uso da tatuagem não é pecado, mas é resultado de “falta de sabedoria”. Esse argumento diminui a importância da discussão sobre o assunto ou acaba deixando no campo do fórum íntimo, pois não podemos viver pensando no mais fraco ou naquilo que é escândalo ao mundo. Quando a questão é um assunto absurdo ou sem prejuízos creio que não devemos ficar presos a consciência do mais fraco, porém quando se trata de práticas que de fato escandalizam e simbolizam coisas pagãs, sensuais e algo tão sério como rebelião, como é a tatuagem, precisamos refletir. (1Cor 8)

3. Pensando bíblicamente

Praticamente todos os cristãos confessos declaram que a Bíblia é a regra de fé, prática, governo e disciplina; porém alguns não seguem essa confissão na prática. Quando as regras não se ajustam aos seus desejos ou quando precisam de respostas imediatas, a Bíblia deixa de exercer autoridade. Achei curioso quando li um teólogo liberal afirmar que o problema não está na Bíblia; sua autoridade, revelação sobrenatural, verdade, etc. Ele diz: “pessoas modernas querem viver suas vidas, o que significa fazer as próprias regras, tomando um rumo pela vida de escolha própria”. (Don Cupitt)

Se o ser humano não se render à autoridade das Escrituras, seu conhecimento de Deus e suas decisões da vida serão tiradas da experiência e da sua própria cultura; o indivíduo será acomodado a cultura e se tornará refém de si próprio ou de algum sistema absurdo de vida. Seguir a Bíblia, seja no que é claramente revelado ou naquilo que é deduzido dela nos permite conhecer a Cristo, imitá-lo e assim resgatar o propósito de Deus para sua criação. É através de Cristo e Sua Palavra que nós formamos uma “mente evangélica” (Mark Noll) e essa filosofia é a singularidade da cosmovisão cristã.
  
Encontramos nas Escrituras alguns textos que deveriam ser nossa regra de vida. Todos os pensamentos e decisões de um cristão precisam considerar esses textos como fundamentais:

I – 2Cor 3.2. “Vós sois a nossa carta, escrita em nosso coração, conhecida e lida por todos os homens...”. Algumas pessoas precisam de cartas de recomendação, pois suas vidas não são conhecidas, mas aqueles que são frutos do ministério apostólico suas vidas são para si mesmos uma carta. É fato que as pessoas ao nosso redor estão olhando para nós como uma carta. Para aqueles que convivem conosco basta nosso coração para que percebam Cristo em nós. A pergunta é: como os de fora irão nos ler quando olharem para nós e sem convivência para interpretar, como interpretarão as marcas em nosso corpo. É essa leitura externa que a sociedade em geral faz, razão que justifica um policial militar questionar todas as pessoas na revista, se tem tatuagem ou não; por que fez? E onde fez? As pessoas nos associarão a Cristo ou ao mundo (prisioneiro, heavy metal, punk, etc).

A tatuagem é uma poderosa forma de comunicação. O objetivo daquele que marca o corpo é comunicar alguma mensagem através de si mesmo, tendo como fonte de escrita seu próprio corpo. Talvez o que me chama mais a atenção e não concordar plenamente com aqueles pregadores que somente dizem ser “falta de sabedoria” seja a questão da comunicação cultural. Já ouvi alguns pastores e tatuadores cristãos argumentarem defendendo um sincretismo cultural; ou seja, não havendo nenhum versículo claro sobre isso ou não fazendo nada de mal a ninguém está liberado. Esses irmãos tentam relativizar os símbolos culturais e se apegar as mudanças da cultura. Porém, o sincretismo cultural afeta diretamente a questão da comunicação cultural, afetando o testemunho do evangelho na prática de uma vida cristã mais parecida com o mundo do que com Cristo e Sua Igreja. A tatuagem não faz parte da cultura cristã e não é neutra em sua simbologia cultural; sendo assim, é uma coisa que comunica uma mensagem na cultura.

Como foi demonstrado no capítulo 1 em nossa análise histórica, a tatuagem é um símbolo com significados específicos e nunca na história da humanidade e nem da Igreja esse símbolo foi associado a Deus e aos cristãos. São símbolos culturais que significam rebeldia, culto ao corpo, ídolos pagãos, marcas de alguma facção ou tribo urbana; protesto contra hierarquia ou sistema de autoridade, sensualidade, entre outros. Até mesmo dizeres religiosos, como o nome de Jesus e versículos se tornaram símbolos do sistema penitenciário.[5]Pergunto: Quando as pessoas lerem seu corpo, através daquilo que ele comunica em suas tatuagens, elas te associarão a Cristo? Você estará neutro em uma interpretação que a sociedade fará nas marcas do seu corpo? O sincretismo cultural não conseguirá consistência bíblica e antropológica para defender o uso da tatuagem para um cristão. Meu irmão, você é a carta lida por todos os homens!

Não seria interessante aqui considerar os textos que dizem: “Fugi de toda aparência do mal” (1Ts 5.22)? ou “Não destruas a obra de Deus por causa da comida. Todas as coisas, na verdade, são limpas, mas é mau para o homem o comer com escândalo. É bom não comer carne, nem beber vinho, nem fazer qualquer outra coisa com que teu irmão venha a tropeçar [ou se ofender ou se enfraquecer]. A fé que tens, tem-na para ti mesmo perante Deus. Bem-aventurado é aquele que não se condena naquilo que aprova. Mas aquele que tem dúvidas é condenado se comer, porque o que faz não provém de fé; e tudo o que não provém de fé é pecado”? (Rm 14.20-23) 

II – 1Cor 10.31. “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus. Não vos torneis causa de tropeço nem para judeus, nem para gentios, nem tampouco para a igreja de Deus, assim como também eu procuro, em tudo, ser agradável a todos, não buscando o meu próprio interesse, mas o de muitos, para que sejam salvos”.

Uma pessoa me procurou e disse: “pastor me dê uma razão para não fazer uma tatuagem”. Pensando nesse texto respondi: “como evangélico você precisa mudar a pergunta; os católicos seguem o “princípio do silêncio das Escrituras”, ou seja, o que a Bíblia não diz claramente eu posso fazer. Porém os protestantes reformados seguem o “princípio da regra de fé e prática”, ou seja, eu somente posso fazer aquilo que agrada a Deus, o que o Criador revelou sobre mim. Então, a pergunta seria: “Há alguma razão em que a tatuagem glorifica a Deus?” Eu estou interessado na glória de Deus ou simplesmente desejo marcar meu corpo porque é legal ou porque “todo o mundo faz?” Será que glorifica ao Criador eu me associar a uma prática que historicamente não é cristã e ainda a história revela que seus propósitos sempre estiveram ligados ao culto pagão, sexualidade liberal, máfias, tribos urbanas, etc. Ainda aguardo uma resposta bíblica que justifique a glória de Deus na tatuagem. Radical né? Pois é! Essa é a razão de alguns abandonarem a Cristo e seguir o “presente século” (2Tm 4.10), o desejo de se ajustar aos padrões desse mundo.

III – “Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; porque o santuário de Deus, que sois vós, é sagrado” (1Cor 3.16-17). Há duas expressões no texto que chamam a atenção; primeiro “sois santuários” e depois “é sagrado”. O Apóstolo está chamando a atenção sobre o modo como estamos edificando nossa vida. A exortação acontece em um contexto em que a igreja foi influenciada pelo mundanismo de Corínto; imoralidade, idolatria, partidarismo, sabedoria deste mundo, etc. Por essas razões, foi preciso escrever demonstrando que se de fato são de Cristo, eles não poderiam viver “além de Jesus Cristo” (v. 11), “porém cada um veja como edifica”. O fato do Espírito de Deus habitar em nós garante que não podemos nos associar ao estilo de vida não cristão, somos separados para uma vida consagrada, diferente e não mais na própria sabedoria. Não podemos nos dar ao luxo de desfrutar das “coisas vãs” (1Cor 3.20-21) e nem fazer o que é próprio do homem sem Cristo. “Somos dele”!

IV -  1Cor 6.20. “Acaso, não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por preço. Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo”. Querido irmão, vosso corpo é sagrado. Não sois de vocês mesmos para marcá-lo como se tivesse a liberdade para se escravizar ao mundo não cristão. Agora em Cristo Jesus somos marcados pelo sofrimento da perseguição pelo fato de não nos conformarmos com esse sistema anticristão. Não carregamos no corpo qualquer outra marca “para nos gloriarmos na carne” (Ef 6.13), porém nossa esperança é carregar as marcas de Cristo ((Ef 6. 17). Não nos apresentamos ao mundo, mostrando as marcas desenhadas por um tatuador pagão, mas nos apresentamos a Deus como um culto e cada vez mais parecidos com Cristo, nosso Senhor (Rm 12.1-4).

V – Nossa União com Cristo. “Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos; porque toda a terra é minha; vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa. São estas as palavras que falarás aos filhos de Israel” (Êx 19.5-6); “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz...” (1Pe 2.9).

As expressões “no Senhor”, “nele” ou “em Cristo” ocorrem 164 vezes nas cartas de Paulo. Por isso, ele diz: “logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim...” (Gl 2.20). A nossa União com Cristo determina como devemos ser e as ideias e formas de viver na sociedade. Por Cristo sou liberto do sistema, seja da secularização ou do sincretismo com todas as suas sutilezas e promessas de sucesso e orgulho próprio. Em Cristo podemos oferecer ao mundo uma proposta de vida e de religião que promovem a verdadeira comunhão com Deus, felicidade, justiça e sabedoria. Isso se chama REDENÇÃO. “No Cristo crucificado é que estão a verdadeira teologia e o verdadeiro conhecimento de Deus”. (Lutero)

VI – 2Cor 1.12. “Porque a nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência (συνείδησις), de que com santidade e sinceridade de Deus, não com sabedoria humana, mas, na graça divina, temos vivido no mundo e mais especialmente para convosco”. Nossa consciência não está fundamentada na libertinagem do que “faço o que quero” ou escrava dos símbolos cravados na tatuagem, não e não! Esse texto nos orienta nessa questão. Vivemos em novidade de vida, com uma consciência cativa a palavra de Cristo e firmada pelos fundamentos da cosmovisão cristã e como cremos na suficiência e autoridade das Escrituras somos guiados pela filosofia reformada.

VII – Rm 11.36. “Porque todas as coisas são dele, por ele e para ele. A ele seja a glória eternamente! Amém”. Pv 16.4. “O Senhor fez todas as cousas para determinados fins...”. 1Cor 7.31. “e os que se utilizam do mundo, como se dele não usassem; porque a aparência deste mundo passa”.

Há uma regra cristã muito importante a ser considerada nessa questão. É o princípio correto no uso das coisas que Deus criou. A Bíblia nos orienta devidamente sobre a finalidade das coisas e como deveríamos usá-las, isso para a revelação dos ímpios e o louvor dos justos. Os ímpios deturpam todas as coisas e os justos contemplam as belezas e desfrutam dos prazeres das coisas criadas.

Cada coisa foi feita para um fim proveitoso, na prática vê-se que a natureza revela seu propósito nas próprias qualidade naturais que demonstram e os benefícios para a vida e para a glória do Criador. Assim pelas Escrituras e pela razão natural sabemos as finalidades de todas as coisas (ou quase todas) que existem e assim desfrutamos com sabedoria e obediência, caminhando sem apego para o Reino futuro do Nosso Senhor.

Por essas razões, concluo a reflexão desses três versículos, perguntando: historicamente, qual o propósito/finalidade da tatuagem? Para que essa coisa passou a existir? O corpo humano foi feito para ser marcado por uma incisão voluntária? A tatuagem promove benefícios à vida? É necessária a existência humana e a qualidade de vida? Promove a beleza de Cristo? Quais as qualidades naturais que a tatuagem demonstra para que ela tenha um fim proveitoso e glorifique a Deus?

Naquilo que de fato glorifica a Deus podemos dar razão, como muito claramente nos explica o Prof. João Calvino: “Ora, se ponderarmos a que fim Deus criou os alimentos, verificaremos que ele quis levar em conta não só a necessidade, mas também o deleite e gáudio; assim, na indumentária, além da necessidade, foi seu propósito fomentar o decoro e a dignidade; nas ervas, árvores e frutas, além dos variados usos, proporciona a beleza da aparência e a suavidade do perfume. Ora, a não ser que isso fosse verdadeiro, o Profeta não contaria entre as beneficências de Deus “o vinho que alegra o coração do homem”, “o óleo lhe faz resplandecer o rosto” [Sl 104.15]; nem estariam as Escrituras, a fim de enaltecer-lhe a benignidade, relembrando a cada passo que ele deu aos homens todas as coisas desse gênero”. (Inst, III, X, 2)

O ímpio deturpa o uso das coisas criadas e promove outro fim que não é proveitoso: o sexo foi feito para o casamento (adultério); o esporte para a saúde e alegria (UFC); a música para expressar louvor e alegria (Black Metal, Funk, Punk); a religião para comunhão com Deus (idolatria); a consciência para a liberdade de expressão (revolução); a política para a ordem e justiça (injustiça, corrupção); o livre comércio para o direito de propriedade, generosidade e o dom da riqueza (socialismo, egoísmo). O vinho que foi feito para a alegria se tornou na cultura brasileira uma desgraça, a cerveja produzida pelos monges e um ótimo diurético se tornou uma destruidora de famílias. Todas essas coisas foram feitas para a glória do Criador, mas são corrompidas pelo uso não cristão, daí a necessidade de redenção e da prudência em relação ao vinho e cerveja por causa do testemunho.[6] O corpo não foi feito para a tatuagem e a tatuagem não foi feita para o cristão.

Acredito que considerar o fim de todas as coisas é uma boa e sábia filosofia de vida e ter como fundamento a dedução das Escrituras em assuntos não claros é agradável ao Senhor e um prazer de sua soberania.

4. O novo crente e sua antiga tatuagem

Não vejo muitos problemas em relação ao novo crente, talvez apenas um texto já nos orienta: Atos 17. 30-31 - “Ora, não levou Deus em conta os tempos da ignorância; agora, porém, notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam; porquanto estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos”. Nossa antiga vida era guiada pelo “príncipe deste século” (Jo 16.11; 2Cor 4.4) que operava em nós (Ef 2.2), agora regenerados pelo Espírito (Ef 2.1; 2Cor 5.17) recebemos nova vida e andamos segundo Cristo e estamos em transformação para que a cada dia sejamos mais parecidos com Ele (Rm 8.14,28-29). Por essas razões, as marcas do velho homem com toda aparência do mundo cravada no corpo se tornou um testemunho de redenção e um meio para que, através dessas marcas o novo crente possa testemunhar em palavras de sua conversão.

É claro que no primeiro momento o novo crente será associado a antiga vida, porém algumas marcas do passado são incorrigíveis. Isso não deve deixá-lo constrangido ou desanimado, mas com o coração redimido e interessado em pregar o evangelho, ele deverá usar essas marcas como oportunidade de fazer o Cristo libertador conhecido em todos os grupos da sociedade.

Agora, convertido e crente ele deverá andar como crente, fazer as coisas de crente e como crente ser parecido com aquele que ele crê. “Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia”. (Jo 15.18-19)

5. Jesus Cristo tem tatuagem?

Tenho ouvido algumas pessoas desinformadas usarem um argumento “bíblico” para defender o uso da tatuagem. O argumento é baseado no texto de Apocalipse 19.16: “Tem no seu manto e na sua coxa um nome inscrito: REI DOS REIS E SENHOR DOS SENHORES”.

Refutação bíblica: Um antigo ditado diz: “Um texto fora de contexto é pretexto para heresia”. Considerando as regras de interpretação e o contexto é preciso considerar duas coisas: em primeiro lugar o versículo anterior e posterior revelam que a linguagem é simbólica. O versículo 15, diz: “Sai da sua boca uma espada afiada, para com ela ferir as nações...”. Seria possível alguém acreditar que literalmente sai uma espada de aço ou de ferro da boca de Jesus? Acho que nem no circo alguém acreditaria nisso. É um símbolo que representa o juízo de Deus pela Palavra. Em segundo lugar, símbolo cravado na coxa ou em uma tradução mais literal; “nas vestes sobre a coxa”, é uma demonstração simbólica de soberania, controle e governo sobre tudo e todas as nações. Nos versículos posteriores encontraremos sua soberania na guerra contra os poderes do Maligno e os Reis que se acham poderosos.

Em nenhum momento há evidência de ser uma marca física literal, também é preciso considerar que o texto descreve o Jesus vitorioso, juiz e não é um texto normativo, doutrinário que autoriza os cristãos a marcarem seus corpos, seguindo o exemplo dos pagãos. Não e não!! O texto não fala sobre tatuagem e muito menos oferece um salvo conduto para o cristão se parecer com o mundo.

As únicas marcas no corpo que Nosso Senhor carrega são as marcas físicas da cruz. Ele foi definitivamente cravado pelos nossos pecados, moído e marcado para que como cordeiro de Deus tirasse nossos pecados e assumisse nosso lugar de condenação e morte. Jesus é tatuado sim, com as marcas do sofrimento e agonia; as marcas da paixão. Não foi e não será cravado pelas agulhas de uma filosofia de vida pagã, rebelde e mundana; pois todas essas coisas se tornaram malditas nele para nossa libertação e novidade de vida. A cruz continua sendo maldita e uma lembrança de que lá Ele levou sobre si nossas transgressões. A cruz de Cristo é a única marca física que o Senhor levará para sempre sobre si.

Conclusão:

1Cor 6.12. “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas”. Mediante todas as informações históricas e reflexão bíblica eu concluo que a tatuagem é incompatível com a fé cristã. Não creio que convém a um servo de Cristo se deixar dominar por essa prática pagã. De minha parte, não me deixarei dominar por coisas que não edificam a igreja e muito menos por aquilo que pode constranger ou escandalizar o evangelho. Prefiro me guardar de qualquer prática que está diretamente associada aos grupos ilegais de prisioneiros, as tribos urbanas, máfias japonesas ou até mesmo a aqueles jovens que se rebelam contra os pais, pastores e autoridades civis. O mesmo princípio e reflexão bíblica eu aplico para a maçonaria, ingerir publicamente bebida alcoólica, festa de halloween e junina, uso de drogas e outras coisas impiedosas.

Finalmente, aos meus leitores e amigos, tatuados ou não; meu amor, carinho e todo o respeito que lhe são dignos. Nunca faltarei com respeito e cordialidade a qualquer pessoa que seja. Somente a Deus toda a glória!     


[1] Para propósitos missionários ou aquela mãe que perdeu o filho e no auge do sofrimento tatua o nome da criança para lembrá-lo para sempre, etc.
[4]http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI132738-17770,00-CONHECA+A+HISTORIA+DA+TATUAGEM.html
[5] Basta fazer uma rápida pesquisa na internet ou em revistas especializadas que o leitor encontrará esses símbolos e seus significados. Ex: https://noticias.terra.com.br/brasil/policia/pm-desvenda-significados-de-tatuagens-no-mundo-do-crime,7b4bfce66b23b410VgnVCM4000009bcceb0aRCRD.html
[6] O uso dessas coisas em si não é pecaminoso, porém devido aos desvios e a leitura da sociedade é recomendado que o cristão são seja dado a essas coisas e principalmente não participe na mesa dos ímpios no uso público. O não se dominar revela imaturidade e desqualificação ao ministério cristão, aquele irmão que é dado a essas coisas não pode exercer o presbiterado e nem um tipo de liderança pública na igreja. 

5 de setembro de 2016

Impressões de LAUSANNE - YLG2016

1. Breve História de Lausanne

O Movimento de Lausanne é um movimento evangélico global que nasceu no Congresso Internacional sobre Evangelização Mundial em 1974. Neste evento, que ocorreu em Lausanne (Suíça), estiveram presentes 2700 delegados de mais de 150 países. Organizado por Billy Graham e John Stott, o Movimento de Lausanne deu origem a vários encontros estratégicos a nível global, onde se inclui o encontro de Lausanne em 1974, o de Manila (1989) e o da Cidade do Cabo, na África do Sul (2010). 

    Nos dias 3 a 10 de agosto aconteceu o Encontro de Líderes Jovens de Lausanne na Cidade de Jacarta, na Indonésia, estiveram presentes cerca 1000 delegados de +-150 países. Este é o terceiro encontro convocado pelo Movimento, que ocorre uma vez a cada geração. Os encontros anteriores foram em Cingapura, 1987, e na Malásia, em 2006, mobilizando e conectando influenciadores emergentes evangélicos na missão global. Esses encontros também proporcionaram amizades para a vida e parcerias ministeriais. O objetivo do Encontro é promover conexões entre os líderes e capacitar novas gerações para a missão global a fim de que esses influenciadores promovam um impacto permanente para o Reino e a igreja global.[1]

2. Estrutura e Acolhimento
   
   Cheguei em Jacarta no dia 02 de agosto às 22:45. No aeroporto já contava com a companhia dos irmãos Homero (Jordânia) e Natan (ABU); após o desembarque nos unimos a Matheus (ICEV) e Andreia (Canadá). Também já se aglomerando havia vários irmãos estrangeiros aguardando o transporte para o hotel. 

   Desde o primeiro momento fiquei impressionado com a estrutura do evento. A equipe de apoio (cooperadores) foi maravilhosa, eram irmãos indonésios. Todos os trabalhos de orientações, apoio e cuidado eram realizados com muita alegria e disposição, para mim estava notório a satisfação desses irmãos em nos servir e conversar conosco. Em todos os momentos me deparava com um sorriso e “can I help you?”. Sobre a estrutura, os hotéis estavam ótimos, excelentes e também com bom atendimento e um delicioso café da manhã. Havia ônibus com vários horários para nos conduzir ao local do evento e também é importante destacar a segurança, sempre reforçada para que tivéssemos o melhor Encontro possível.

  O Encontro aconteceu na UPH (Universitas Pelita Harapan), uma belíssima universidade cristã. A estrutura oferecida, desde auditório, salas de reuniões e espaço de alimentação promoveram um encontro de excelência e tudo muito bem organizado. Quero parabenizar aos organizadores de Lausanne e a Igreja Indonésia, pois a estrutura e logística do evento foi nota 1000.

3. Envolvimento com as Escrituras
   
   O grande tema do Encontro foi Unidos na Grande História e os temas que nos guiaram durante as reuniões da manhã foram criação, queda, redenção e a vida na nova cidade. O período da manhã iniciava com música, peça teatral e exposição; depois havia alguns minutos para oração e reflexão e para finalizar a manhã o grupo de conexão (grupo pequeno), este discutia e meditava no texto. Fiquei bastante tocado com as exposições. No período da noite as músicas se destacavam mais, seguido de informação (situação do mundo), orações e palestras. Aqui quero destacar uma palestra do Ravi Zacharias: “precisamos entrar na história de Deus e receber orientações para saber evangelizar no meio das mudanças. Encontrar um ponto de contato, mostrar a glória de Deus. As pessoas estão te olhando, seja verdadeiro, evangelize com a vida sem comprometer o evangelho. Vamos lutar, levar o evangelho ao mundo com verdade e justiça. Traga formas diferentes de pregar o Cristo machucado, mas não comprometa o evangelho”.

   A brasileira Marina Silva deixou uma boa reflexão em sua palestra. Argumentou biblicamente sua tese de sustentabilidade, pensando na defesa e cuidado da criação: “destruir a criação é ofender ao criador e desprezar o presente que Ele nos deu”. Anne Zaki expôs sobre a Torre de Babel, demostrando o grande problema da idolatria e o egocentrismo e ainda outra impressão marcante foi com o David Platt, que pregou com ousadia sobre a condenação do mundo e deu ênfase na necessidade de proclamar a Cristo. Os Guinnes nos conduziu a uma reflexão sobre crises ao redor do mundo, como secularismo e crescimento do Islã; sua preocupação com secularismo está na forma de como as gerações futuras vão encarar as mudanças, levando o evangelho sem ser influenciados. “É preciso ter coragem para quebrar com a própria geração quando estão errados”.

   Lausanne é um movimento comprometido com as Escrituras, vê-se uma dedicação em todas as partes para que Deus seja ouvido e glorificado por meio da Palavra. A obra de evangelização mundial deve considerar as Escrituras e o Cristo crucificado é o Cristo da Escritura. Por isso que o Pacto de Lausanne (1974) dedica um capítulo inteiro falando da autoridade da Bíblia, seu poder e interpretação. A Confissão de Fé de Cape Town na parte 1, item 6 diz: “Nós amamos a Palavra de Deus nas Escrituras do Antigo e Novo Testamentos ... Nosso amor pela Bíblia é uma expressão do nosso amor por Deus”. A Missão de Deus não é realizada pela experiência com o homem e nem determinada pelas necessidades, mas exclusivamente pela Palavra de Deus e redenção em Cristo. As estatísticas mostram que o mundo está perdido e ainda há milhões de pessoas sem o evangelho e nem uma porção da Escritura, o tempo ainda não terminou!

4. Grupo de Conexão
   
   Uma das coisas que mais me marcou e promoveu impressão foi o grupo pequeno. Nosso grupo foi formado por: Stephanie Kraft (UK), nossa mentora; André Saldiba (IBAB); Samuel (Portugal); Mateus (ICEV); Ana Paula (AME); Andréia (Canada) e Eu. Nos reunimos no auditório todas as manhãs para meditar no texto exposto e das 11 a 12:15 para compartilhar o LifeMap e orarmos juntos. Fui muitíssimo edificado pelas histórias de cada um e também pelo cuidado e carinho da líder da equipe, que com sua experiência e amor a Cristo nos impactou muito.

5. Encontros e Contatos
   
   Um dos propósitos do Encontro foi proporcionar CONEXÃO entre os convidados. Tive o privilégio de conversar bastante com alguns irmãos ligados a organizações importantes; como ABU (Natan, Giovanna, Jéssica, Fernando, etc), MAIS (Homero), AME (Iva e Ana Paula), KAIRÓS (Wellington), JMM (Davi e Vanessa), Dynamic Church Planting (David Godoy), JV (Marcos Botelho), ALEF (Leandro), Jonathan (Pesquisa), Vocare (galera), Roberto/Simone (Burkina), Krisensio (Timor), Priscila (FTL), Isaque, Paulo Moreira, Marcos Amado, Tônica e outros preciosos irmãos que mesmo sem serem citados aqui contribuíram muito com meu aprendizado e edificação. A delegação representou bem a diversidade da igreja brasileira; diversidades de regiões, pensamentos e desafios, tanto transculturais, como urbanos. Irmãos alegres, motivados e cheios de sonhos e ainda o orgulho em ver conterrâneos levando o evangelho em contextos extremamente difíceis. Sou devedor a essa delegação pelo aprendizado e momentos de conversas e sugestões ministeriais. Alguns contatos para estágios de alunos foram feitos e espero que isso promova benefícios em prol do Reino.

6. Envolvimentos (reuniões em grupo, conversas individuais e frustrações)
   
   Participei praticamente de todos os encontros, no auditório e em pequenos grupos. Além da programação normal, tivemos algumas reuniões extras; uma reunião aconteceu com a Marina Silva. Minha impressão sobre esse encontro foi ruim, ela falou sobre sua proposta política, como vê a missão e sobre rótulos. Na primeira questão, ela propõe uma política nova, neutra e fora dos rótulos direita e esquerda. O problema é que quando ela argumenta sobre uma nova maneira de se fazer política e contra rótulos, suas propostas são horizontais, partem das necessidades e de uma empolgação marxista, aliás ela falou sobre marxismo. Em relação a missão, ela disse o quanto gosta da “teologia da libertação” e suas leituras bíblicas e ilustrações são baseadas em interpretações de padres e libertacionistas. Também defendeu uma missão que parte “do contato com o próximo”; ou seja, seus pressupostos são claramente esquerdistas/marxistas e não cristão/protestante/bíblico. Infelizmente o tempo não me permitiu perguntar, mas percebi o quanto seus ideais influenciam os evangélicos brasileiros, houve um clube de fãs em torno dela e ouvi uma dezena de irmãos reproduzindo a questão dos rótulos. Nós sabemos que não há política e nem teologia neutras, somos filhos da nossa educação e de pressupostos teológicos e filosóficos, conscientes ou inconscientes; nós revelamos esses pressupostos em nossos discursos e quando não assumimos nossas posições ou não somos convictos é porque nossos pressupostos são frágeis ou ruins. Em relação a Sustentabilidade fiz um comentário positivo acima, realmente foi muito bom e bíblico, daí acho que a questão está na política mesmo.

   Minha oficina foi sobre o Islã. Tivemos um tempo muito produtivo guiados por um bate papo sobre os desafios com o Islamismo. Ouvimos vários obreiros que trabalham em regiões difíceis. Outro encontro importante relacionado ao Islã foi com o Pr. Marcos Amado, conversamos um bom tempo sobre educação teológica, meu ministério no SETECEB, Lausanne e Islamismo. Esse nobre pastor é professor no Seminário Servo de Cristo, líder do Martureo e um missionário apaixonado pela evangelização dos muçulmanos. Os dois encontros promoveram em mim uma compreensão mais bela do trabalho com os muçulmanos; fui convencido da necessidade de trabalhar para que a Igreja entenda seu papel. Somos chamados para uma evangelização considerando que os muçulmanos são perdidos e não conhecem a verdade, por isso precisam ser amados e alvo do cuidado da Igreja. O corpo de Cristo não pode se deixar influenciar pela mídia, considerando todos os muçulmanos terroristas e assassinos. A linguagem da Igreja é outra e o exemplo é o de Cristo, sendo assim o discurso bélico é para o Estado que é ministro de Deus para restringir o mal, mas o corpo de Cristo proclama o evangelho redentor e demonstra com atitudes o cuidado de Deus por sua criação. Também tive um precioso tempo com o Pr. Paulo Moreira, falamos sobre missões, igreja e principalmente os desafios do movimento de Lausanne no Brasil e como poderíamos nos envolver mais. Sou grato a Deus por esses momentos em grupo ou 1+1.
  
  Tentei promover algumas discussões com os brasileiros sobre a realidade da igreja brasileira em relação a Missão. Escrevi nos grupos, propus temas de debates e até apelei para que produzíssemos algo, talvez um projeto ou documento. Poucos responderam positivamente. Mas, graças a empolgação de alguns irmãos conseguimos nos reunir mais duas vezes. Na primeira reunião ouvimos alguns compartilharem seus anseios e desejos. Marcos Amado expôs algumas necessidades para que Lausanne fosse mais conhecido no Brasil e um pouco do que são os princípios do Movimento. Sara Breuel e Mila Gomides também falaram sobre a necessidade de fazer algo e o irmão Hélder Favarin explicou como exemplo o que estão fazendo na Espanha. 

 Houve um certo sentimento de necessidade de uma organização ou grupo para trabalhar no Brasil. Marcos Amado propôs o início de uma organização e deixou sugestões para serem discutidas na próxima reunião. Nessa segunda reunião também foi apresentado o Daniel Bianchi, novo coordenador de Lausanne para a América Latina. Daniel explicou a importância do Brasil para os outros países e deseja muito que os brasileiros estejam envolvidos com eles e disse: “Nós precisamos da Igreja Brasileira”. Na terceira reunião, realizada na quarta-feira foi formado um grupo de coordenação, esse grupo está se organizando e buscando apoio para levar os objetivos e princípios de Lausanne a frente. Essas reuniões foram maravilhosas, conhecemos pessoas, ouvimos seus desafios e nos surpreendemos com a capacidade de cada um e suas vidas no campo. 

   Estive presente como ouvinte em uma reunião do grupo da Fraternidade Teológica, onde me senti acolhido e bem-vindo. Logo depois fomos a uma reunião com todos os latino-americanos. Aquela proposta de formular um documento deu certo do lado latino de fala espanhola. Nossos hermanos se animaram e nos buscaram para participar com eles. Fiquei empolgado e feliz com o compromisso dos irmãos em produzir algo mais palpável e ser uma voz a partir de Lausanne. Fiz a leitura da proposta três vezes e posso atestar que o documento ficou muito bom. A Teologia latino-americana está muito bem representada no quesito social e na luta para ser uma voz frente a corrupção e injustiças sociais. Qualquer pessoa que lê ficará admirado com a sensibilidade e “voz profética”, mas é notório para mim que não é uma proposta integral, pois falta evangelização/pregação. A minha maior tensão está no tratamento que alguns, repito alguns, líderes latino-americanos dão a Missão. As conversas e reuniões giram em torno das necessidades humanas, considero muito antropocêntrico. 

  Há uma forte reação a pregação e evangelização tradicional. Senti na pele a dificuldade de alguns quando fiz essa crítica e revelei meu desejo de trazer para o movimento irmãos de denominações mais conservadoras. Ouvi: “esse é o contexto da América-Latina”, “não podemos pensar em denominações”. Sei que houve pelo menos três pessoas que propuseram a inclusão de mais proclamação e evangelização, porém no documento final não saiu essas propostas e somente faz uma menção muito pequena a isso, enquanto quase que na totalidade o discurso é social. É perceptível a reação negativa quando descobrem que há alguém no meio que não é da TMI e não defende uma Teologia Contextual. Mas, reconheço que as frustrações foram bem menores do que a comunhão, paz, crescimento e aprendizado que esses nobres irmãos causaram em minha vida e ministério, agradeço a cada um! 

7. Impressões Conclusivas
   
   Creio plenamente em Lausanne. O Encontro de líderes jovens confirmou o que venho ensinando em seminários nos últimos anos, que o Movimento de Lausanne é fundamentado biblicamente, continua sendo fiel aos princípios elaborados em 1974 e conhecidos pelo Pacto de Lausanne e reafirmados pela Confissão de Cape Town (2010). Pode-se resumir Lausanne como um “movimento de mobilização global para o cumprimento da Missão em resposta ao grande amor de Deus na história, através do evangelho de Jesus Cristo, do amor a Bíblia, de uma proclamação cristocêntrica e um esforço de redimir o mundo de Deus pelo auxílio da graça e da presença do Espírito” é também “um movimento de unidade, comunhão e alegria do Espírito no corpo de Cristo”. Lausanne representa muito bem a diversidade na unidade e o desejo de fazer de tudo para Cristo ser conhecido sem negociar a verdade, sem abrir mão de seus fundamentos e com um grande interesse de promover conexões e parcerias para cumprir a grande comissão até a volta de Cristo.

   Creio em “Uma Missão Integral”. O Encontro me levou a algumas reflexões e revisões missiológicas. Ainda tinha algumas dúvidas em relação a proposta de uma Teologia Contextual, porém ouvindo as palestras e conversando com irmãos de diversos lugares do mundo tive a certeza de que qualquer proposta de teologia contextual ou latino-americana é libertacionista e excludente. Não creio em nenhuma proposta de teologia/missiologia que parte do contexto ou da experiência humana com o pobre/marginalizado/necessitado, não sou otimista em relação ao ser humano. Creio em uma Missão de Deus que é elaborada à luz das doutrinas da revelação e inspiração plenária da Bíblia. Isso me obriga a crer que o texto foi formado a partir de um contexto histórico e gramatical e que esse contexto único da revelação determina a intenção do autor e o que de fato Deus quer dizer. O nome Jesus de Nazaré não foi dado porque Ele exercia sua preferência aos pobres e servia nos guetos (hermenêutica contextual), mas como nos revela o contexto, Ele era chamado de Jesus de Nazaré porque cresceu na cidade de Nazaré. Essa interpretação e outras como a libertação no Êxodo é única em todos os lugares e tempos. Ela depende de seu próprio contexto e não está presa ao contexto atual, libertacionista ou existencialista. Creio sim na necessidade da contextualização, ou seja, um ministério que se encarna na cultura e desafios do povo alvo, trazendo a Palavra de Deus para a realidade do povo, em sua língua e contexto, sem modificar o significado único do texto. O ser humano precisa se arrepender de seus pecados e se ajustar a Palavra e não o contrário.

   O conceito Integral depende do pressuposto daquele que o defende. No Brasil nós encontramos algumas vozes atribuindo a si mesmo uma defesa de Missão Integral, vê-se claramente posicionamentos políticos, diálogos intensos com a Teologia da Libertação e um interesse grande por uma missão que parte do “encontro com o outro”, “com o pobre” e não com Cristo e sua Palavra. Também há vozes que devem ser ouvidas e admiradas, nisso louvo: CEM, Ultimato, ALEF, entre muitas outras. Creio que o conceito Integral promovido por Lausanne tem como pressuposto a Escritura e essa como uma revelação proposicional e inspirada, por isso Integral quer dizer: “A proclamação da glória de Deus na face de Cristo” (Lindsay Brown), sendo pregada publicamente e de casa em casa (At 20.20), amor pela Igreja e pelo mundo de Deus, a busca pelo cuidado do mundo, que afetado pelo pecado é destruído. Isso é Evangelho Integral, olhando para as coisas do alto (Lc 11.20; Cl 3.1-4) e cuidando responsavelmente das coisas da terra (Gn 1.28; Lc 9.13; Rm 8.18-23). 

   Creio que precisamos de mais jovens corajosos que lutam pela evangelização mundial; precisamos de uma geração fiel, compromissada e responsável. Que estejam dispostas a se prepararem melhor teologicamente e também, assim como há um bom grupo lutando contra as injustiças e corrupções, que Deus levante jovens brasileiros dispostos a lutar pela unidade da igreja, pela verdade do evangelho, denunciando erros na prática da Missão e na política eclesiástica de forma conservadora, ou seja, bíblica. É notório que há uma tendência no evangelicalismo brasileiro em manter um discurso de paz, paz e segurança (1Tes 5.3) para que não haja confrontação de erros e heresias quando na verdade cresce o mundanismo, liberalismo, feminismo, ecumenismo, sincretismo, etc. Esse discurso não contribui com a verdade, não promove a glória de Cristo e muito menos a evangelização mundial. Por jovens líderes mais preparados e corajosos para cumprir a Missão!

8. Agradecimentos
   
   Quero expressar minha gratidão ao Pr. Huang Cheng Hsiung, Diretor da Missão Servos que durante os últimos 13 anos tem me ensinado através de aulas e exemplos sobre a Missão de Deus e com muita confiança e coragem me indicou para o YLG2016, acreditando em mim como um líder influenciador na obra missionária brasileira. Agradeço imensamente minha denominação (ICEB), tanto como instituição (MEAN, MEAR/MT, MEAR/SP, MEAR/CN, SETECEB, DM, Igrejas locais), bem como muitos pastores, irmãos e amigos que intercederam e ofertaram para minha viagem. Agradeço meus amigos da Igreja Presbiteriana Santo Eterno, sempre presentes na minha vida e ministério e ao MCC (Missionários Cristãos Cooperadores). Agradeço a Igreja Presbiteriana de Vila Bonilha (Rev. Fábio), pelas orações e oferta generosa. Minha gratidão aos familiares, amigos anônimos, alunos e professores residentes do SETECEB que contribuíram e oraram. Ao meu irmão Roberto, meu amigo e mantenedor, sempre presente em todo meu ministério. Minha amada esposa e meus filhos que sempre sofrem minha ausência, desejo que meu amor e dedicação ao Senhor sirva de exemplo para que vocês o amem e se necessário morram por Ele, obrigado por entenderem que Deus através do Ministério e minha família são a minha vida. 


   Desejo de todo o coração que Nosso Deus em Cristo Jesus os recompense e aumente o vosso crédito, isso para a glória Dele!

   Pela evangelização mundial,
   Glauco Pereira